Sintonia entre Rio e Ventura

O debate entre Rui Rio e André Ventura deve ter feito muitos dirigentes, militantes e eleitores do PSD corar de vergonha. A prestação de Rui Rio foi má, mas isso não é o mais significativo. Realmente importante, realmente grave, foi a disponibilidade de Rio para negociar com a extrema-direita um acordo para formar governo.

Pressionado pela moderadora a esclarecer se negociará o governo com o Chega, Rui Rio, que se ia refugiando em evasivas e meias-palavras, não conseguiu mais fugir à clarificação: "A negociação não pode chegar nunca a uma situação em que haja uma coligação, em que haja ministros do Chega."

Ou seja, tal como nos Açores, Rio não quer integrar o Chega no governo, mas dispõe-se a um acordo de base programática.

Essa negociação, aliás, começou logo ali, em direto e ao vivo, relativamente à reintrodução da prisão perpétua - um retrocesso civilizacional de quase 150 anos -, que Rio admitiu poder aceitar, desde que com condições.

A convergência entre os dois em numerosos temas foi tal que André Ventura, com uma pergunta fatal, assinalou o que se ia tornando óbvio: "Então qual é a nossa diferença?" Rui Rio, de forma confrangedora para o PSD, não foi capaz de responder.

O motivo pelo qual o presidente do PSD não quer integrar o Chega num eventual governo seu é por ser um partido "instável", que num dia quer uma coisa e no dia seguinte quer outra.

Ser um partido racista, xenófobo e que demoniza os beneficiários de subsídios não é problema para Rui Rio. Não é, portanto, uma questão de valores; é apenas uma questão de humores.

Para Rio tudo é possível, tudo é tática para atingir o poder. Os princípios e os valores nada representam.

Para quem ache que o Chega é apenas um partido um bocado exagerado, um tanto pitoresco, e que André Ventura diz aquelas coisas mas não pensa realmente assim, é bom lembrar a escolha ideológica que o Chega assumiu ao aderir ao grupo ID, a extrema-direita europeia.

Os parceiros europeus do Chega são partidos como a AfD alemã, a extrema-direita com a qual Angela Merkel proibiu qualquer negociação, que levou mesmo à demissão da sua sucessora por ter permitido um acordo com a AfD no estado federado da Turíngia para tirar a esquerda do poder.

Rio, que tanto usa a Alemanha como exemplo, devia compreender as razões para esse comportamento. Negociar com partidos racistas e que instilam a raiva e o ódio é legitimar valores que não podem ser aceites numa democracia.

É por isso que, quando Rui Rio permitiu um acordo semelhante nos Açores, várias personalidades do PSD, incluindo ex-governantes como Poiares Maduro, José Eduardo Martins, Francisco José Viegas ou João Taborda da Gama subscreveram um abaixo-assinado em que se insurgiram contra a aceitação do extremismo. Jorge Moreira da Silva falou de traição aos valores sociais-democratas, Pacheco Pereira e vários outros deixaram clara a sua forte oposição ao acordo.

Agora que Rui Rio, em plena campanha eleitoral, se aproxima do Chega e admite um acordo de incidência parlamentar, a pergunta que se impõe é a que foi colocada por Hugo Soares, ex-líder parlamentar do PSD: "Como é que se trocam convicções por conveniências de poder?"

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