Semanologia: Três contos morais

1 Era uma vez, há muito, muito tempo atrás, um imperador. O imperador vivia num magnífico palácio em torno do qual um exército dedicado. Aí o visitava uma princesa secretamente amada (pois o verdadeiro amor carece de recato). Um dia, o imperador disse: "Faça-se uma Operação Militar Especial (OME)". O seu vizir perguntou, timidamente: "Senhor meu, o que é uma Operação Militar Especial?". O imperador olhou-o com desdém. "Não se faz uma OME sem LETE", disse, cripticamente. O vizir, ciosamente, foi procurar LETE. Convocou governantes, militares, cientistas, empresários, ortodoxos e reservistas. Juntos, conseguiram encontrar LETE para a OME: "L", de "Limpar ucranianos"; "E", de "Espancar, Esfomear, Esfolar, Estrangular e Enterrar"; "T", de "Tomar com Terror, Tropas e Tiros os Territórios"; e mais um "E", de "Este mundo é o que Ele, o Eufórico, Elegante, o Eterno Imperador quiser fazer com a Energia". Foi assim que o vizir, correndo pelos longos e adornados corredores do palácio imperial, de bandeja na mão, se dirigiu aos aposentos privados do seu amo. E, depois de se fazer anunciar, com uma vénia, disse: "Senhor meu, temos OMELETE!". O imperador, entretido com a princesa, e sem se voltar, disse": "Deixa aí sobre a mesa". O vizir pousou a OMELETE, e, em silêncio respeitoso, curvado, deixou o nobre casal, em paz.

2 Era uma vez, há muito, muito tempo à frente, um primeiro-ministro, de um país, muito, muito à frente. Um dia, visitava ele uma escola primária, rodeado de fiéis servidores, de câmaras e de criancinhas. Uma delas levantou a mão e perguntou: "Senhor primeiro-ministro, por que estamos muito, muito à frente?". Com benevolência, pedagogia e um sorriso nos lábios, o iluminado governante respondeu: "Meu menino, porque nós, os competentes, sabedores, superiores socialistas, tirámos do Poder os malandros da Direita, que faziam mal aos velhinhos e aos pobrezinhos, que não sabiam cuidar da saúde e da educação do povo e que queriam privatizar a TAP". Outra criancinha levantou a mão e perguntou: "Senhor primeiro-ministro, mas não está a saúde pior, a educação um embrulho, os pobrezinhos mais pobres e a TAP não vai ser privatizada por si?". O iluminado governante, com paciência, disse:" Minha menina, não é assim. Eu explico: este país foi feito para nós, os socialistas, mandarmos. A saúde está pior, mas a culpa é dos maus. A educação está pior mas a culpa é dos maus. Os pobrezinhos estão pior mas a culpa é dos maus. Vou privatizar a TAP depois de ter enterrado nela muitos milhões, por culpa dos maus. Nós somos os bons, percebeste?"

A criancinha, maravilhada, virou-se para outra criancinha e comentou: "Muito, muito à frente!". As câmaras e os fiéis servidores concordaram. Tod@s bateram palmas. O iluminado governante sorriu, magnânimo.

3 Era uma vez, neste tempo, um príncipe da igreja. O príncipe estava rodeado das coisas que um príncipe deve ter: castelo, séquito, terras, povo. O príncipe da igreja tinha uma vantagem sobre outros príncipes - era abençoado. Cada coisa que dizia ou fazia, cobria-a com o manto da luz divina. Até que se soube, o príncipe tinha demónios escondidos por baixo do seu hábito, dentro do seu hábito. Levantaram-se vozes. Vozes caladas, pois deve-se calar a voz sobre a presença do Maldito. Deus atribuiu aos anjos e aos homens a liberdade. E houve aqueles que caíram da alegria iluminada, quem tenha tombado de forma capital, atraído pela infâmia. A queda de um anjo ou de um homem é coisa que faz correr lágrimas no Paraíso, pois mesmo no reino da alegria pode a tristeza. Um príncipe da igreja descido desgosta o céu e a terra. Que fazer? Talvez cuidar com misericórdia dos seus erros? Afinal, Deus é, infinitamente, misericordioso. Tudo pode, até mesmo tudo perdoar. "Vai, e não tornes a pecar". E se se tornar a pecar? Deus é infinitamente misericordioso. Perguntarão os incautos se o Filho de Deus, percorrendo os caminhos da Galileia, o fazia transportado em liteira por escravos e acompanhado por bailarinas e músicos, lá, na terra onde se prometia o correr do leite e do mel. Contam os livros que o Filho do Homem não era um príncipe da Igreja, antes um humilde pregador, com a nobreza no coração. Contam os livros que, mesmo tentado no deserto, conseguia olhar com pureza o horizonte, sofrendo a dor no corpo e no espírito, encontrando o caminho do amor e da paz. Mas isso foi noutro tempo, e a Sua força infinita.

Neste tempo, a fragilidade encontra o desejo e o desejo o silêncio.

Chegou a noite. O príncipe da igreja deitou-se, na cama que outros lhe fizeram.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG