Semanologia: A confiança

1 A construção pessoal e social da confiança é matéria complexa. Pode parecer estranho, mas é impossível determinar, em abstrato, em quem se confia ou no que se confia. A confiança instala-se em situações concretas, seja por aceitação de regras ou instituições, seja pela acomodação a um certo modo de vida, seja pela experiência de relações pessoais ou aprendizagens. A vida pessoal e comunitária sem níveis mínimos de confiança em si e nos outros é insuportável. Precisamos de confiar no que somos, no que sentimos, no que pensamos, no que nos rodeia.

2 Um exemplo importante de quebra de confiança no quadro comunitário é a recente afirmação pelo atual governo sobre o aumento das pensões. Foi dito, com pompa e circunstância, que os pensionistas teriam mais dinheiro em outubro de 2022, como forma de enfrentar as dificuldades atuais provocadas pelo aumento dos preços. Mas, rapidamente, percebeu-se que este aumento imediato não revelava o plano de baixar a base de cálculo do aumento futuro do valor das pensões, correspondendo, por isso, a um decréscimo efetivo do seu valor. Se a reforma do sistema de pensões é necessária para garantir a sua sustentabilidade, que haja coragem para o dizer. Afirmar que se aumenta as pensões quando, efetivamente, se está a baixá-las, corresponde a uma irreparável quebra de confiança. É provável que o corte de pensões determinado pela troika e a falta da sua explicação clara (as razões do corte) tenha impedido uma maioria mais consistente à coligação PSD-CDS nas eleições legislativas de 2015. Os reformados sentiram que houve uma quebra de confiança. Então, não houve truque no corte das pensões, mas faltou esclarecimento. Não é o caso atual. Esclarecidamente, o governo praticou um truque. A confiança foi abalada, presume-se, de uma forma dificilmente recuperável - o que se poderá testar em próximas eleições. Ou a dominação do Estado e da opinião pública e publicada pelo PS é já tão forte que passaremos a democracia iliberal.

3 Inventar uma verdade - o aumento das pensões quando elas baixam - não só é demonstrativo do nível de mesquinhez presente na atitude do governo, como de miopia política. Mesquinhez, por ser muito grave, sobre um tema tão fundamental para a vida das pessoas como as suas pensões, afirmar medidas ditas positivas para os atuais pensionistas quando não o são. Miopia, por não se ter visto que a fragilidade do argumento construído em torno desta matéria seria rapidamente desmontado. Como foi possível tamanho erro político? Por excesso de confiança. É que, ao longo dos últimos sete anos de governação socialista, já se impuseram, com facilidade, tantas verdades, que deve ter parecido normal colocar, no espaço público, mais uma.

Basta lembrar a verdade de que a austeridade foi inventada pelo PSD de Pedro Passos Coelho e terminada com brio pelo PS de António Costa. Quando o PS - no governo entre 2005 e 2011 - levou o país à beira do desastre económico e social. Obrigando o governo PSD-CDS de 2011-2015 a governar com a imposição de medidas austeritárias que foram assinadas entre o então governo do PS, a União Europeia e o FMI. Quando o aumento dos salários da governação Costa foi acompanhado pelo aumento dos impostos indiretos - dar com uma mão e tirar com a outra. Quando o crescimento económico que permitiu ao Partido Socialista "brilhar" entre 2016 e o início da pandemia se deveu ao governo anterior, com o saneamento das contas públicas e da economia, que voltou a crescer, desde 2014.

Será que ainda se consegue impor a verdade de que todos os problemas presentes são resultado da pandemia e da guerra, e os constrangimentos futuros culpa da Europa e do FMI? Será que o Partido Socialista se prepara para, logo que der jeito, deixar a fatura dos tempos difíceis a outro governo? Para que se possa manter a versão junto da opinião pública sobre quem são os bons e quem são os maus?

A destruição das bases da confiança no espaço social quebram o sentido de comunidade e contribuem ativamente para o avanço da extrema-direita. Que quem nos levou a esta quebra seja responsabilizado.

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