Seis meses de Montenegro — otimismo agridoce

Cumpre-se esta semana o primeiro semestre de Luís Montenegro na liderança do PSD. Até 2026, data a que se propõe chegar nos cartazes espalhados pelo país, faltam eleições regionais, europeias, autárquicas, presidenciais e um par de congressos. A ausência de oposição interna, a que se junta o desgaste acentuado do governo, tornam esse objetivo passível de crença. Os primeiros seis meses de Montenegro na direção do seu partido também. Não foram perfeitos, nem apresentaram respostas para os maiores desafios dos próximos quatro anos, mas mostraram um empenho incomum, que rareava no PSD dos anos mais recentes.

Pode não estar ainda claro - e deveria - que país quer Montenegro para os portugueses, mas não há dúvida de que quer conquistar essa responsabilidade para si próprio. Meio-ano como presidente do PSD foi suficiente para um domínio quase total da máquina partidária, para uma afirmação evidente num espaço político hoje disputado a três e para uma presença mediática redobrada. Esse é o ponto de partida que o homem de Espinho ganhou entre a primavera e o inverno deste ano, sem o qual nenhuma das suas metas seria exequível. Na sua equipa, a generosidade na distribuição de protagonismo agradou e surpreendeu.

Escorregou, no meu entender, numa questão estrutural e numa passageira. A estrutural, que mais dores de cabeça deu a António Costa desde a vitória de janeiro, tem que ver com as pensões e a promessa de que, com o PSD, "não haveria nenhum corte" nestas. Acreditando ou não, concordando ou não, esta é uma promessa que mexe demasiadamente na vida das pessoas - e na imagem do partido - para não ser devidamente explanada. E o facto é que não foi. O maior partido da oposição precisava de explicar tintim por tintim por que é que faz sentido indexar as pensões à inflação em 2023 - ou não - e isso requer capacidade técnica e de comunicação. Daqui a 2026, como princípio de credibilidade, não pode prescindir de ambas. Para isso, não pode ser um político que reage a notícias, mas antes um político que é a notícia.

A segunda questão - ou segunda escorregadela - envolve a proposta de revisão constitucional, que me espantou pelo timing e pelo processo. Em primeiro lugar, porque Montenegro era candidato à liderança quando descartou o projeto de revisão constitucional de Rui Rio, ainda este ano. Em segundo, porque a iniciativa de rever a Constituição partiu originalmente do Chega, com o qual o PSD não deve partilhar agenda. Em terceiro, por plasmar uma certa itinerância estratégica no montenegrismo, ora apostado em desgastar pela oposição, ora disposto a desgastar-se pela discussão de ideias.

As consequências de uma oposição que se deixa ser escrutinada na vez de escrutinar tendem ao desastre. Como alguns se lembrarão, no primeiro debate Costa vs. Rio, nas passadas legislativas, o primeiro-ministro varreu o chão com a proposta de revisão constitucional do então líder do PSD. Não menosprezando a disponibilidade de intelectuais como Poiares Maduro (depois de estar no governo de Passos, na reforma do sistema político de Rio, no programa de Rangel e no apoio a Moreira da Silva), pergunto-me: afinal, o que ganhou o PSD com isto, além de mais um vexame do próprio seu grupo parlamentar?

É essa, além do tabu em torno do Chega, a brecha que poderá atingir o presidente do PSD. Uma liderança de bancada tecnicamente exímia, mas sistematicamente cilindrada pelo primeiro-ministro. Um grupo parlamentar inexperiente, tão órfão de rostos quanto o partido, mas crescentemente amargurado com uma gestão descuidada, de que as votações contra iniciativas da direção nacional são prova.

Dito de forma direta: só se pode ignorar uma bancada enquanto ela o permitir, e também não se ganha nada em fazê-lo.

Quando ao partido de André Ventura, que todos já perceberam ser inevitável para a alternância, a sinceridade resvala consoante a ocasião. No congresso, Montenegro prometeu "nunca negociar políticas populistas", mas nada disse quanto a partidos populistas. Na Assembleia, endorsou o candidato do Chega à vice-presidência da mesa, mas distanciou-se da "oposição de berraria". E não há solução, infelizmente, que não evitar a verdade hoje para não ser acusado de mentir amanhã.

Entre os descrentes, já se aponta à instabilidade de um governo social-democrata que dependa do apoio de Ventura, talvez esquecendo que isso significaria, uma década depois, um primeiro-ministro do PSD.

Ao fim de seis meses, esse otimismo justifica-se. Nos próximos quatro anos, não deixará de ser agridoce pelas mesmas razões.

Colunista

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