Se este texto for sobre a Europa, alguém lê?

A pergunta que me inquieta é esta: o mundo está numa corrida em pelo menos três sectores-chave - inteligência artificial, digitalização e biotecnologia. Em qual destes a União Europeia está à frente? Em nenhum. Não temos a Google nem a Apple, dependemos no 5G da tecnologia norte-americana ou chinesa, estamos atrás da China e dos norte-americanos em dados/chips e, como se tornou evidente, só conseguimos marcar algum ponto na corrida à vacina porque um turco, Ugur Sahin, casou com a filha de uns emigrantes turcos (a investigadora Ozlem Tureci) e ambos criaram na Alemanha a BioNtech (que se aliou a um gigante norte-americano, Pfizer).

Os dados sobre o atraso europeu são tremendos. Se assumirmos um critério de mercado para analisar o futuro - as empresas mais valiosas em bolsa - lanço uma adivinha: quantas empresas da União Europeia constam da lista das 50 maiores globais? Apenas três. Segundo o site Statista, com dados de 2020, temos apenas a francesa Louis Vuitton na 34.ª posição, seguido do Raiffensen Bank, da Áustria, no 44.º lugar, e da L"Óreal em 49º. Na liderança estão a Saudi Arabian Oil, Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet (Google), Facebook e Alibaba.

Por isso, talvez não se deva levar à letra as proclamações das cimeiras que nos anunciam futuros radiosos. Na hora h, o realismo impõe-se. O dinheiro. Como dizia ontem, aqui no DN, o coordenador da Unidade Técnica de Apoio Orçamental, não há apoios a "fundo perdido". Isto acabará por ser pago de alguma maneira porque a União Europeia endividou-se e... a dívida é dos países que a financiam.

Questão central: como é possível que os fantásticos Estados sociais europeus produzam tão poucas empresas de inovação e liderança global? Provavelmente estamos a formar excelentes pessoas, mas desfasadas da marcha do mundo. Empregadas em companhias cada vez mais fracas, à mercê dos mais fortes conglomerados, que são cada vez mais hostis, sem rosto. Não é por acaso que todos os grandes apelos das direitas e esquerdas populistas assentam no nacionalismo - sobretudo económico. Proteger o que tenho, o que fui, como era antes.

A conversa pública entre José Miguel Júdice, Raquel Varela e Susana Peralta sobre o IRS já é isto mesmo: variações sobre como dividir a conta no reino de Lilliput. Porque riqueza, não aparece em Outubro por alturas do Orçamento. Não por acaso, Mário Centeno já avisou que é preciso parar com os apoios de emergência covid no Verão. E tudo isto não é sadismo: é a realidade.

Daí os dois mecanismos do Governo para aguentar a crise: proteção social q.b. e investimento público (a bazuca), muita dela centrada em obras públicas - para garantirmos que a grande percentagem de trabalhadores/votantes com poucas qualificações não ficam sem emprego e não mudam o voto para o antissistema. Ainda assim, nada é certo. Uma espécie de anestesia com a desculpa covid. Finalmente investimento público pago pelos amigos europeus.

Hoje é o dia da Europa e poucas vezes podemos agradecer tanto à União a sua existência e o acordo dos 27 quanto às vacinas. Em simultâneo, não sei se houve algum outro momento em que as nossas economias estivessem tão afastadas da liderança do mundo. A Europa-museu concretiza-se de forma invisível todos os dias. O "Porto" só ajudará a mudar a Europa se, de forma improvável, o resto do mundo aceitar finalmente viver com os nossos direitos sociais e padrões de vida. Sem isso resta-nos lentamente ir fechando fronteiras. Ou chamarmos os indianos para nos ajudarem.

Jornalista

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