Reflexões sobre a derrota do Ocidente no Afeganistão (1)

"Vencer a guerra antes de lutar" (Sun Tzu)

O Afeganistão é um país da Ásia Central com intensas disputas geopolíticas ao longo dos séculos. É conhecido pela resistência do seu povo aos invasores, sendo um dos países mais pobres do mundo apesar dos importantes recursos minerais.

A disputa pelo poder é caracterizada pela violência, tendo como resultado um país praticamente ingovernável. Que não é nação nem estado por ter uma sociedade segmentada em diferentes tribos, clãs e etnias em que algumas se prolongam por países vizinhos. E está dilacerada pelos conflitos étnicos e divergências entre a maioria muçulmana sunita e a minoria xiita.

Acresce que os aspetos geográficos condicionam a coesão e a administração do território, o que facilitou o refúgio de organizações terroristas como a Al-Qaeda - apoiada posteriormente pelos talibãs -, tendo sido responsável pelos terríveis atentados de 2001. Esta foi a principal motivação para os EUA concretizarem uma intervenção militar no Afeganistão que já vinha sendo equacionada, tendo sido apoiada pelos aliados ao invocar o artigo 5.º da NATO.

A invasão visava punir o regime talibã, desmantelar a Al-Qaeda e capturar o seu líder. Contudo, apenas este objetivo foi atingido com a eliminação de Osama bin Laden, em 2011, no Paquistão, por uma operação dos serviços secretos e das forças especiais.

O processo de geração de forças arrastou-se, obrigando à projeção de unidades militares sem que tivesse sido definida com clareza a sua missão. A falta de uma estratégia coerente acabou por resultar em incoerências, indefinições, indecisões e alterações dos objetivos políticos. Ademais, a condução das operações foi afetada pela falta de coesão entre os membros da NATO e pela inexistência de um plano de ação comum às forças da coligação. E a ausência de unidade de comando condicionou a coordenação.

Com efeito, os objetivos não eram transparentes, pois havia também a motivação relacionada com a localização geoestratégica. E a ambição geopolítica de assegurar influência na Ásia Central, tendo em vista o controlo de uma rede (em projeto) de oleodutos e gasodutos.

A operação de contraterrorismo acabou por se transformar numa missão de reconstrução do Estado - controversa entre os EUA e aliados - que, por sua vez, teve de enfrentar a contrassubversão num ambiente hostil para a qual não estava desenhada e preparada. Quando Obama anunciou, em 2014, a intenção de retirada, verificou-se o aumento da intensidade do conflito, com elevado número de baixas, passando novamente a uma operação para desmantelar a Al-Qaeda.

Além disso, os EUA deviam saber que provocar mudanças no Afeganistão só através da influência do Paquistão, cujo regime entretanto passou para a esfera de influência da China. Curiosamente, desde 2013 que Pequim tem ambições geoeconómicas na região, no âmbito do projeto da Nova Rota da Seda.

Importa sublinhar que a intervenção militar no Afeganistão ficou comprometida, quando, em 2003, os EUA resolveram invadir o Iraque para manter o controlo do petróleo do Médio Oriente, dispersando o esforço militar numa decisão polémica que provocou divisões na administração Bush e nos aliados.

Os diversos atores internacionais encararam, de forma displicente, a relevância dos aspetos históricos e das características sociais, culturais e religiosas afegãs, geradoras de uma teia de hierarquias e alianças. Que podiam ter sido importantes no compromisso e no apoio da população para evitar a atrição e a rejeição. A guerra é ganha e perdida no nível estratégico

(continua)

Capitão-de-fragata (na reforma)

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