"Quem a velho (não) chegar a vida lhe há de custar"

Andamos tão inebriados com a corrupção, os milhões para o Novo Banco e a requisição civil de Odemira, que nos passou completamente ao lado a bomba-relógio que vai estourar nas mãos da minha geração nas próximas décadas. Mais uma!

Na passada semana conhecemos o mais recente Ageing Report da Comissão Europeia, do qual se extraem algumas conclusões já bem conhecidas ao longo das últimas décadas e que todos parecem ignorar olimpicamente, mas do qual se inferem outras novas preocupações que nos devem convocar para uma ação imediata!

O Ageing Report revê, a cada três anos, o impacto das mudanças demográficas e macroeconómicas na sustentabilidade dos sistemas de pensões na União Europeia.

Eis uma verdade inelutável: daqui a 20 anos, quem se reformar não irá receber nem sequer metade do seu último salário.

Isto é alarmante porque a maior parte das pessoas está plenamente convicta de que, todos os meses, desconta para uma espécie de porquinho mealheiro que vai abrir na velhice, através do qual viverá com a mesma qualidade de vida com que sempre viveu. Isto não podia ser mais falso!

Primeiro, porque aquilo que hoje transferimos do nosso salário para o Estado, em impostos e em contribuições sociais, não paga sequer as reformas e pensões dos que hoje usufruem dela, quanto mais dos futuros reformados; e, em segundo lugar, porque já a partir de 2035 haverá uma redução dramática da população empregada que faz descontos. A população em idade de trabalhar, dos 20 aos 64 anos, vai encolher em quase 2 milhões de pessoas.

Ora, se hoje a minha geração ainda consegue manter as reformas e pensões dos mais velhos, o que acontecerá quando nos reformarmos, se na verdade, já daqui a 14 anos, seremos menos 2 milhões de pessoas ativas a descontar para a Segurança Social?

Mas as más notícias não terminam por aqui.

Se todos ignoramos estes factos porque eles parecem tão longínquos quanto o dia em que as galinhas terão dentes, a verdade é que já num futuro muito próximo poderemos sofrer na pele as consequências deste inexorável desastre social.

Segundo as previsões de Bruxelas, os pensionistas portugueses passarão a receber reformas no valor de menos de metade dos seus salários antes da década de 2050 e ficarão 20 anos mais tarde a receber apenas 41,4% dos rendimentos que tinham antes da reforma.

Isto significa que, ainda que fazendo parte da população ativa em 2040 e nos 20 anos seguintes, a minha geração conviverá, naquelas décadas, com uma outra geração de reformados que terá de viver com menos de metade do seu último salário. Isto tem consequências absolutamente devastadoras para a economia de um país já de si desgastado e cronicamente pobre.

Pior do que sabermos que não vamos ter reforma e que os decisores políticos passaram os últimos 60 anos a borrifar-se para a solidariedade intergeracional, é imaginar viver num país em que continuaremos a sustentar este estado de coisas, sabendo à partida que mitigar este problema terá custos. Mexer nas regras de cálculo de pensões para garantir adequabilidade das reformas custará 5,6% do PIB. É fácil perceber quem é os vai pagar e sob a forma de quê...

A pandemia e a forma desastrada como o governo foi lidando com ela desde há um ano levam-nos a ser parcos com um governo que não teve nem nunca terá intenções de realizar em Portugal as verdadeiras reformas de que o país necessita. Primeiro porque não tem uma visão estratégica para o país, segundo porque não tem sequer coragem para o admitir e, em terceiro, porque governa para as próximas eleições e não para as próximas gerações.

A dura realidade é que a legislatura já leva quase dois anos e nem o governo nem a Europa têm sequer debatido este problema, com a lamentável conivência dos media, cuja função é também de escrutínio das instituições públicas, mas, acima de tudo, de informação e sensibilização da população.

Concordarão que o provérbio que dá título ao texto tenha sido adaptado aos novos tempos. É que se este país não é para velhos, também não é - certamente - para novos

Deputada do PSD

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