Qatar 2022 e o reverso da medalha

O próximo Mundial de Futebol está praticamente à porta. Digo-o desta forma porque o tempo, para mim, tem passado mais rapidamente em tempos de confinamento. Nunca fui tão produtivo como agora, talvez por ter de inventar entretenimento e, quando dou por mim, estou sempre a entreter-me com algo ligado ao que me dá mais prazer, o trabalho e, já é sexta-feira outra vez.
O desejo e a ânsia em ultrapassar esta fase também ajudará certamente e a verdade é que o pessegueiro à porta de casa é a árvore mais florida da rua, indicando que o Inverno já foi e que os bichinhos vão começar a comer borboletas para as terem no estômago, só porque sim.

Toda a região do golfo Pérsico se pode sintetizar num arranha-céus espelhado, cujo "barulho das luzes" nos ofusca e deslumbra, querendo dele fazer parte. Por isso lá vamos para vestirmos o fato do Tio Patinhas e passearmos despreocupadamente com os nossos sobrinhos a caminho da caixa forte e da vida glamorosa que não temos.

Será, no entanto, importante, enquanto comunidade esclarecida que afinal até lê jornais, estarmos conscientes do reverso desta ilusão da qual qualquer Las Vegas nos distrai. Desde a confirmação desta polémica candidatura, em 2010, já morreram 6751 trabalhadores imigrados no Qatar, uma média de 12 por semana, na construção de sete estádios de futebol, autoestradas, hotéis e um novo aeroporto. Isto são números de guerra civil, enquanto um porta-voz da FIFA recorre à estatística e diz que comparativamente ao número de acidentes mortais na construção de outros estádios noutras partes do mundo, o número está abaixo da média. Um consolo para viúvas e órfãos, certamente.

Referi a "polémica candidatura", já que o bruaá que se foi adensando envolvendo corrupção e tráfico de influências nunca provadas estará certamente na origem do desterro a que Blatter e Platini ficaram sujeitos desde 2015, pelo Comité de Ética da FIFA. E, polémica também, pela questão das altas temperaturas que a região vive a cada Verão, a época normal para a realização do evento. Por isso mesmo este Mundial de Futebol decorrerá entre Novembro e Dezembro de 2022, alterando o calendário de todos os campeonatos europeus, os que contam, provando desta forma também a deriva dos polos de decisão política mundiais.

O dinheiro move montanhas, mas também o absurdo. Veja-se o seguinte exemplo. Neste debate inicial sobre as altas temperaturas na região, seja em Junho/Julho ou em Novembro/Dezembro, a preocupação não se limitava ao desgaste dos jogadores em campo, mas também aos milhares de adeptos que aí se deslocariam para a festa e o calor nas ruas, que dificultaria a circulação dos mesmos, durante o dia e à hora dos jogos. A autoridade responsável pela realização do evento rematou para canto, dizendo o seguinte, "mas nós colocamos ar condicionado nas ruas, qual é o problema?"! Para já está garantido que os estádios estarão equipados com uma tecnologia que fará baixar a temperatura para os 20 graus centígrados, criando um novo conceito, o do ar condicionado a céu aberto, enquanto um outro mundo, o que permitiu a realização deste evento no deserto, se preocupa e se desdobra em iniciativas esclarecedoras sobre a importância em diminuir a pegada ecológica destes mesmos adeptos!

Politólogo/arabista.
www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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