Putin. Entrada de leão e saída de…?

Agora que passaram mais de dois meses sobre a guerra na Ucrânia é um exercício muito interessante comparar os dois discursos centrais de Vladimir Putin. O que proferiu, imediatamente, antes de 24 de Fevereiro e o de 9 de Maio, na Praça Vermelha.

A primeira conclusão que se retira é o manifesto recuo na retórica usada. Enquanto no discurso de lançamento da guerra a ameaça nuclear sobre a Humanidade era uma realidade expressa na declaração de que a "Rússia moderna (...) é uma das potências nucleares mais fortes do mundo", no discurso de 9 de Maio, Putin meteu a "viola no saco". Nem uma única referência ao nuclear. Aliás, de tanto usada, a ameaça nuclear banalizou-se.

Antes da guerra e quando arrancou para esta aventura fratricida, tudo ia concretizar-se num ápice, e Putin afirmava que sobre a Ucrânia ia "virar a página o mais rápido possível".

Mas, essa pressa, parece ter-se desvanecido. Putin, versão 9 de Maio, é um líder refugiado num discurso justificativo, quase como que a arranjar um álibi para uma guerra que ele provocou e já leva 15 mil mortos, só do lado russo.

Territorialmente, já se sabe, os objectivos foram revistos. Antes da guerra era patente nas palavras de Putin que as suas pretensões abrangiam toda a Ucrânia, "infestada" de neonazis, que estavam a "criar uma anti-Rússia hostil" nos velhos territórios históricos da União Soviética. Mas, a 9 de Maio, essa anti-Rússia hostil parece ter-se reduzido à faixa leste da Ucrânia onde, "os milicianos de Donbass, juntamente, com os combatentes do exército russo, lutam na sua própria terra". Uma ausência discursiva que é também uma boa maneira de escamotear a derrota política e militar que Putin sofreu, quando as tropas russas ficaram bloqueadas à entrada de Kiev. Sobre isso, claro, nem uma palavra a 9 de Maio.

No discurso de 9 de Maio, Putin meteu a "viola no saco". Nem uma única referência ao nuclear.

Aliás, neste último discurso, o presidente russo parece ter abandonado as preocupações manifestadas pela região de África, nomeadamente pela Líbia. Sobre este país, Putin acusou o Ocidente de ser responsável (não deixa de ter alguma razão) pela "tragédia que condenou centenas de milhares de pessoas a um êxodo migratório no norte de África (...) para a Europa. É pena que o líder russo não sinta, a 9 de Maio, a mesma preocupação, quando bloqueia o porto de Odessa, impedindo assim a exportação de 5 milhões de toneladas de cereais. Uma boa parte destes cereais são destinados a alimentar os mais pobres países de África como, por exemplo, o Egipto, Tunísia ou Líbano. E tudo isto acontece apesar do pedido insistente para a abertura de corredores humanitários que possibilitassem a exportação dos referidos cereais. Aliás, este, um bom tema para António Guterres colocar na agenda das Nações Unidas, pressionando Putin para que a exportação dos cereais se torne uma realidade e não se transforme numa situação de ainda mais miséria e fome em África.

Finalmente, no discurso antes do início da guerra na Ucrânia, há algumas frases que, conhecido o modo de actuação de Moscovo, nos fariam rir, não fosse o contexto de drama humano que inserem.

Tomem boa nota desta frase que Putin proferiu antes do início da guerra:

"Nós não vamos impor nada a ninguém pela força. A nossa política baseia-se na liberdade, na liberdade de escolha de cada um para determinar independentemente o seu próprio futuro e o futuro dos seus filhos".

Nos dias de hoje, passados mais de dois meses de guerra, que dirão disto as famílias desfeitas, as centenas de cidadãos ucranianos deportados para território da Federação Russa contra sua vontade, os pais e mães das mais de 200 crianças mortas na sequência dos selváticos bombardeamentos russos a alvos civis.

Que dirão desta "liberdade" os fugitivos de uma guerra cruel, com vidas destruídas, forçados a procurar uma alternativa de sobrevivência em países amigos?

O que dirão desta frase os que tinham algum familiar em Bucha, torturado, executado, sumariamente, às mãos dos soldados russos com autorização expressa dos seus superiores hierárquicos?

Que dirão da mesma frase os que viram as suas casas destruídas, as crianças que ficaram sem escola, os doentes sem hospitais, os velhos sem protecção, as mulheres viúvas de guerra e as mães que perderam os filhos?

Estranha forma de "liberdade", esta!

Antes da guerra, o discurso de Putin foi uma entrada de leão, pensando que a vitória era fácil e estava a dias de distância. Enganou-se, e como escrevemos numa das crónicas anteriores, meteu-se numa "camisa-de-onze varas", visível aos olhos de qualquer observador atento.

Depois de uma entrada de leão vamos ver, no futuro, como será a saída de Putin?

Jornalista

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