Profetas do dia seguinte

Governar, decidir, é difícil. Ainda mais quando se tomam decisões sobre as liberdades individuais e a saúde dos cidadãos.
E mais ainda quando é necessário decidir sem ter toda a informação e sendo impossível conhecer antecipadamente o resultado de cada escolha.

Só quando, finalmente, se conhecem as consequências se pode então avaliar se as decisões terão sido as mais acertadas. Porém, não sendo possível realizar o contrafactual, não é também possível saber exatamente qual seria o resultado de ter tomado uma decisão diferente.

Isso não impede que tenhamos pensamentos contrafactuais ("se a opção tivesse sido outra, então..."), que mais não são do que simulações mentais de alternativas possíveis de ação. Um aspeto curioso deste tipo de pensamentos é que eles parecem surgir mais vezes relativamente às ações dos outros (o que poderiam ter feito diferente) do que relativamente às nossas, revelando como a natureza humana nos predispõe a avaliar o que os outros fazem mais do que aquilo que fazemos nós.

Esta tendência terá porventura o seu expoente máximo na vida política, onde se confrontam ideias e emoções, extremando-se as virtudes das ações próprias e os defeitos das dos outros.

É, portanto, muito raro - mas extraordinariamente salutar - ver um político assumir os seus próprios erros, e tão mais raro quanto mais elevado é o cargo que desempenha. Nessa medida, o reconhecimento, por parte de António Costa, de que o governo cometeu erros na gestão da pandemia é uma verdadeira lição de humildade democrática.

Esse reconhecimento tem também o condão de proteger o governo relativamente a muitas das críticas que lhe são dirigidas. Não é que as pessoas achem que as coisas não poderiam ter corrido melhor, a questão é que dificilmente acreditam que isso aconteceria caso fossem outros a decidir; e a franqueza de António Costa é aí um ponto claramente a seu favor, em contraste com aqueles que, quais profetas do dia seguinte, hoje criticam as decisões tomadas para o Natal, quando antes não o fizeram ou até apoiaram o aligeiramento das medidas.

Assim, ver o responsável do PSD para o acompanhamento da pandemia criticar agora o governo pelo aliviar das regras no Natal, quando no início de dezembro era o próprio Rui Rio que pedia "um menor rigor no Natal por ser uma festa especial", contribui apenas para o descrédito dos próprios e da atividade política.

Todos compreendem que o Natal, com regras que então mereceram um consensual apoio social e político, teve consequências mais graves do que qualquer um imaginaria e contribuiu para a necessidade de um novo confinamento. Agora que ele se inicia, sabemos que qualquer que seja o resultado, ele será também criticável. Mas esse resultado só o saberemos dentro de algumas semanas, porque, como dizia um famoso futebolista, "prognósticos, só no fim do jogo".

Eurodeputado

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