Portugal atrativo

São muitos, demasiados, os portugueses que acumulam o duplo pelouro da competência e do ceticismo. São capazes, mas duvidam da sua capacidade; preferem enfatizar o copo meio vazio em detrimento do meio cheio. Talvez porque herdaram uma cultura moldada pelo fechamento, que nos subtraiu o século de tudo e mais alguma coisa, o XX, afastando-nos de realidades outras que seriam um bom comparativo e fariam bem à autoconfiança nacional. Porque acredito que o capaz um dia vencerá o cético, insisto sempre na ideia de que Portugal, por ser pequeno, só pode ter problemas pequenos, e esse mesmo Portugal, por ser hoje muito aberto, pode aceder a uma infinidade de oportunidades e possibilidades de sucesso.

Para não ser só eu a dizer isto, a consultora EY divulgou o seu Attractiveness Survey Portugal 2021, que avalia a atratividade do país ao investimento direto estrangeiro (IDE). O resultado é mais que animador e, seguramente, uma desilusão para o exército luso que se dedica a maldizer o país, como se fôssemos a cauda do mundo. Portugal está nas 10 mais atrativas economias europeias (não só União Europeia) e foi dos países que, de 2019 para 2020, menor quebra sofreu. A França, que lidera, perdeu 19% no número de projetos, a Espanha perdeu 27%, os Países Baixos perderam 23%, enquanto Portugal perdeu apenas 3%. Só as economias emergentes da Turquia e da Polónia cresceram.

Uma leitura do desempenho dos últimos anos revela ainda que o nosso país tem vindo a reforçar fortemente a sua posição, tendo evoluído de 47 projetos de IDE em 2015 para 154 em 2020. Para melhorar o cenário, 21% dos projetos do ano passado são expansões de anteriores investimentos, o que mostra a confiança e a satisfação dos investidores. O copo está mesmo meio cheio e continua a encher.

Também muito positivo é o perfil dos investimentos. Indústria transformadora (com prevalência do setor automóvel), tecnologias de informação e serviços digitais constituem a maioria dos projetos, o que nos faz a acreditar ainda mais no futuro.

Face a este caminho promissor, o aproveitamento das tais imensas oportunidades decorrentes da abertura da nossa economia, coloca-se a pergunta clássica, que é a de saber de onde vem a nossa atratividade. De forma simplista, os investidores estrangeiros gostam de Portugal e dos portugueses. Muito do que existe desde sempre, como a qualidade de vida, o clima, a estabilidade social e a hospitalidade. Mas também, e sobretudo, muito daquilo que é o país mais recente e que determina a rentabilidade dos investimentos, como a excelência das infraestruturas físicas, digitais e da energia e as competências dos trabalhadores, aquelas que são formais e decorrem da escola e aquelas que agora se designam de soft skills, como a criatividade e a capacidade de adaptação a contextos multiculturais, multilinguísticos ou multitudo. Há, então, que continuar a trabalhar para manter intacta a reputação (e realidade) territorial e social. E reforçar a formação dos nossos jovens, incutindo atitudes de procura da excelência, sem complexos, expondo-os a experiências de diversidade, de preferência no estrangeiro.

O estudo da EY revela também, como seria de esperar, que nem tudo está bem. As impedâncias de contexto, como a burocracia, a complexidade do sistema fiscal e a lentidão da justiça são recorrentemente referidas e são necessários passos concretos que invertam a perceção negativa nestas dimensões. Até ver, as vantagens sobrepõem-se às desvantagens, o que são boas notícias, mas importa acreditar que o capaz vence o cético, mesmo quando são a mesma pessoa, direcionando a sua energia para a eliminação dos nossos pontos fracos.

Deputado e professor catedrático.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG