Por favor, não me tirem a liberdade

Foi há já 47 anos que vivemos um momento único de celebração de liberdade.
Muitos foram os que se bateram por esse momento, desde os que o fizeram dentro do sistema que dominava o país - através da sua influência para alterar o próprio sistema - até aos que viveram na clandestinidade - lutando e arriscando muito - para conseguir mudar aquilo que não estava bem e que era, essencialmente, a falta de liberdade.

Uma pessoa nunca poderá ser feliz se não puder viver em liberdade.

De imediato, os partidos mais à esquerda pretenderam assumir a propriedade dessa liberdade, assumindo-se como os verdadeiros detentores do poder de julgar tudo aquilo que seria ou não aceite como integrante dos seus conceitos.

Começou aí, desde o início, o erro da nossa democracia. Havia em Portugal uns que tinham mais direitos do que os outros. Os que sabiam e que podiam decidir sobre aquilo que é liberdade e o que o não é. Uma posição dominada por uma minoria de pretensos intelectuais da democracia que se autopromoveram a essa função.

E assim fomos vivendo durante estes 47 anos, sujeitos a uma ditadura de opinião que não permitia a existência de partidos de extrema-direita, mas que admite como defensores da liberdade partidos de extrema-esquerda que defenderam e defendem regimes políticos que não admitem qualquer princípio de democracia nos seus países-modelo.

Mas o povo é sereno e de brandos costumes, por isso lá foi mantendo na liderança dos seus governos os partidos que representavam a defesa de uma visão do mundo plural, sem se preocupar demasiado com esses autocratas da democracia.

E o hábito de "deixar andar" com que temos levado a nossa vida política garantiu a continuidade desta indiferença perigosa, que um dia nos vai trazer dissabores.

Mas em 2015, um destes partidos, num momento de necessidade de assumir uma visão mais pragmática da vida política portuguesa, decidiu abrir a governação aos partidos que verdadeiramente não têm qualquer convicção de liberdade.

É a partir desta decisão que se começa a questionar a situação em que vivia a democracia portuguesa, o seu desequilíbrio esquerdista, a inimputabilidade daqueles que se foram assumindo como os donos do regime, que teve em Otelo o seu expoente mais vergonhoso.

É também a partir deste momento que a direita mais extremista se assume e aparece a propor alternativas de comportamentos que têm acolhimento em parte da população, o que é fácil de compreender, e que resulta de uma reação natural ao peso dos que se foram mantendo como os detentores da verdade.

Esta manifestação de vontade de mudar e de sair da dependência dos pretensos sábios da democracia levou toda a esquerda mais radical a assumir aquilo que a caracteriza de verdade, começando a tentar controlar o sistema através de uma censura, que começou nos jornais e na opinião pública.

É muito grave esta primeira manifestação clara da intenção dos que se sentem ameaçados por não conseguirem mais manter o domínio da realidade política do nosso país, que mais não fazem do que repetir tudo aquilo que se passou em todas as tomadas de poder ditatorial na história, seja pelos extremos da direita ou da esquerda.

A nossa indiferença manteve-se e nem sequer nos demos conta, nem as pessoas nem - espante-se - os partidos políticos, de que aprovámos no parlamento legislação que permite decidir qual é a "verdade" aceite pelo sistema:

"O Estado apoia a criação de estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social devidamente registados e incentiva a atribuição de selos de qualidade por entidades fidedignas dotadas do estatuto de utilidade pública" (artigo 6.º, n.º 6 da Lei 27/2021).

"Entidades fidedignas"?

"Selos de qualidade"?

"Estruturas de verificação" com o apoio do Estado?

A censura vem sempre com a capa de servir a liberdade e acaba sempre com a sua supressão.

A censura é o pior inimigo da liberdade. A censura é um produto do medo. Mas só o medo nos tira a liberdade.

Não tenham medo e gritem comigo: por favor, não me tirem a liberdade!

bruno.bobone.dn@gmail.com

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