Política comercial EUA-China e o banco com duas pernas

Após uma revisão de sete meses, o governo Biden revelou a sua estratégia comercial para a China; a abordagem é, globalmente, uma continuação da política delineada por Trump. É hoje claro que a Administração Biden não alterará significativamente a sua política relativamente à China. Essa política é focada nas vertentes de segurança e defesa e parte da assunção de que a China é uma ameaça estratégica para os EUA que necessita de ser contida por todos os meios - do plano militar às crescentes listas negras de empresas chinesas. A guerra tarifária EUA-China está para durar. O Acordo Comercial China-EUA Fase Um foi mantido, devendo expirar dentro de três meses, e a parte americana sustenta que os compromissos de compra de produtos americanos pela China estão a 60%.

A recuperação económica da recessão provocada pela pandemia da Covid-19 é um objetivo comum aos grandes blocos económicos do mundo e a restauração do comércio internacional é crucial para o efeito. Biden está bem ciente disto. Tendo Biden alterado políticas da Administração Trump em tantas matérias, é importante refletir porque não altera a política comercial americana relativamente à China.

Tal parece decorrer essencialmente de considerações de política interna americana, decorrentes da cada vez mais negativa perceção da China junto dos cidadãos americanos. Por um lado, a postura dura perante a China é transversal e recolhe muitos apoios no Congresso. Por outro lado, há várias correntes nos Democratas tradicionalmente opostas ao multilateralismo do comércio internacional. Biden tem receio que se suavizar a política comercial relativamente à China, tal tenha reflexos nas eleições de meio de mandato em novembro do próximo ano.

É hoje claro que a guerra tarifária não produziu grandes resultados na balança comercial entre a China e os EUA, para além de ter encarecido o custo de inúmeros produtos para famílias e empresas. Por outro lado, uma pesquisa da Câmara de Comércio Americana em Xangai revelou no mês passado, que 60% das 338 empresas americanas que operam na China aumentaram o investimento no ano passado e 82% esperavam crescimento de receita este ano; ou seja, "a especulação de que algumas empresas americanas poderiam mover a produção ou as cadeias de abastecimento para fora da China após a Covid são infundadas", de acordo com a pesquisa.

Por fim, a China solicitou no mês passado a adesão ao Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Trans-Pacífica (CPTPP), que evoluiu a partir da TPP da qual Trump retirou os EUA em 2017 e é agora um dos maiores acordos comerciais do mundo. Os aliados dos EUA na Ásia-Pacífico gostariam que os EUA aderissem ao CPTPP, assinalando que sem uma dimensão económica ao lado dos esforços de defesa e segurança, a estratégia de Biden para o Indo-Pacífico é um banquinho de duas pernas.

Mas os constrangimentos de política interna americana não vão permitir que tal suceda. E, como bem assinala um editorial do Financial Times, "quanto mais os EUA se mantiverem à parte do CPTPP, mais os seus membros podem concluir que é do seu melhor interesse ter Pequim dentro da tenda: para a maioria deles, a China é um parceiro comercial dominante. Para uma Casa Branca determinada em conter a influência crescente da China, isso seria um retrocesso geopolítico considerável."


Consultor financeiro e business developer
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