Política, Ciência e Pessoas

Há uns anos, ainda em funções governativas, fui convidado para uma reunião de diretores de agências nacionais de ambiente e energia dos estados-membros da União Europeia. Recordo o admirável empenho daquelas pessoas na descrição de cenários para a transição energética, apresentando gráficos e curvas quase perfeitas da relação entre a penetração de tecnologias limpas e os benefícios para o ambiente e o clima. A certo ponto, fui interpelado a comentar uma apresentação da Agência Europeia de Energia. A minha intervenção foi, para surpresa dos presentes, sobre pessoas. Defendi a ideia de que competia aos políticos ler as evidências e as interpretações da ciência para formular as opções e tomar as decisões. Mas fui mais longe, ao afirmar que, no fim do dia, seriam as pessoas a decidir.

Naquela sessão, as curvas de adoção de tecnologias limpas, como, por exemplo, a mobilidade elétrica, mostravam inequivocamente que as emissões de dióxido de carbono iriam reduzir e que as alterações climáticas seriam mais contidas. Mas tal não aconteceria por decreto, nem por milagre. Era preciso que as pessoas, na sua condição de consumidores, agentes económicos e cidadãos, acreditassem nesses benefícios e aderissem ao movimento, alterando os seus comportamentos. Sem isso, nada mudaria.

Alterações climáticas, crises sanitárias, guerras ou outros desafios comuns são melhor enfrentados com a adesão voluntária e esclarecida dos cidadãos.

Na última sexta feira, estive na apresentação do livro Covid-19 em Portugal: a Estratégia, que inaugurou a coleção Ensaios para a Sustentabilidade, da Fundação Mestre Casais. A obra, da autoria do grupo de sete cientistas que apoiaram o governo ao longo da gestão da pandemia, liderado pela professora Raquel Duarte, termina com uma lição muito significativa: se, neste tempo que o livro reflete, o país conseguiu controlar o vírus, isso deve-se aos decisores políticos a quem coube tomar medidas, aos especialistas que procuraram sempre ajudar a partir dos seus domínios de trabalho e, acima de tudo, aos cidadãos. A eles se deve tudo.

Presente no lançamento do livro, o primeiro-ministro António Costa descreveu as dificuldades da tomada de decisão ao longo deste tempo, desde que, em março de 2020, a Organização Mundial de Saúde declarou a pandemia da covid. Referiu-se, em particular, à democratização da ciência, saudando o protagonismo e o contributo dos especialistas, mas recordou também as frequentes contradições das posições científicas. Num quadro de decisão em que cientistas, políticos e governo procuraram as opções mais equilibradas, apesar da única certeza ser a da incerteza, António Costa foi categórico ao afirmar que o comportamento dos cidadãos foi a chave para vencer a pandemia.

A política é, por definição, uma atividade de representação, de integração e de fusão de interesses e protagonistas, num processo, nunca acabado, de construção de uma identidade e de um futuro de bem-estar para o coletivo dos cidadãos. Pugnar pelo primado da política é também acreditar que esta valoriza o conhecimento e considera as evidências científicas, ainda que por vezes incertas e rebatíveis, no desenho das opções e na tomada de decisões. Mas essa mesma política e essa mesma ciência não podem, jamais, subestimar a necessidade de trazer as pessoas, coletiva e individualmente consideradas, para a solução dos nossos problemas. Alterações climáticas, crises sanitárias, guerras ou outros desafios comuns são melhor enfrentados com a adesão voluntária e esclarecida dos cidadãos.


Professor catedrático

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