Poderá a "Agência Espacial Marroquina" vir a ser lusófona?

Claro que não, "cada macaco no seu satélite", dirá o provérbio espacial do futuro! No entanto, este debate que à primeira vista pode parecer estapafúrdio, surgiu na sequência da comunicação do nosso Tenente-Coronel de Engenharia (Força Aérea) Pedro Silva Costa, no âmbito do XVII Curso de Estudos Africanos que decorre no Instituto Universitário Militar (IUM) até ao próximo dia 30, sob o mote "Cooperação de Defesa na CPLP" e que reúne militares, polícias e académicos do Minho a Timor, sem esquecer um "porta-aviões chamado Brasil".

O nosso Tenente-Coronel, para além de docente no IUM, é também um dos representantes das Forças Armadas Portuguesas na Agência Espacial Portuguesa, que enquadra a Agência Espacial Europeia e a sua comunicação na passada quarta-feira, versou "Os desafios tecnológicos do futuro em África. Desafios e oportunidades para a CPLP". Identificadas as principais agências espaciais africanas e respectivas capacidades (do Magrebe à África do Sul são 21, dos quais 14 países já lançaram satélites), cujo meu interesse e dúvidas recaíram naturalmente sobre as capacidades marroquinas nesta área. Porquê? Porque já li muito sobre o assunto, sobretudo a propósito do lançamento dos dois últimos satélites alauitas, ambos em novembro, um em 2017 e outro em 2018.

Este "momento de ponta marroquino", coincidiu também com a inauguração do TGV de Tânger a Casablanca e a euforia geral foi tal que nos táxis, nos cafés e nos noticiários se falava em "ciência marroquina"! Tendo um especialista na matéria à frente e um microfone na mão, tive de perguntar.

Afinal é bazófia ou é mesmo assim, já que também tinha lido um "zum-zuns" que um desses satélites já estaria inoperacional, pouco tempo após o seu lançamento. O nosso engenheiro de farda azul foi claro. Marrocos não tem dois satélites por cima das nossas cabeças, mas sim três, sendo que um encontra-se de facto inoperacional (o primeiro lançado em 2001 já terá cumprido a sua missão e morreu de morte natural, conforme previsto). Menos mal, já que um 2-1 continua a ser uma vitória para a equipa da casa!

Em resumo, Marrocos está confortável no espaço, mas ainda lhe falta chão para que o "Mohamed VI-A" e o "Mohamed VI-B", satélites de reconhecimento e observação da Terra, tenham a melhor performance possível. Porquê? Porque um satélite precisa do maior número possível de estações em terra, para que a transmissão das imagens chegue o mais rápido possível. Actualmente o serviço é lento, quando poderia ser mais célere. É aqui que o Espaço Lusófono poderá fazer a diferença, pela proximidade com o território marroquino. Ou seja, esta proximidade até é irrelevante para o acelerar do processo de envio de imagens. Uma estação de terra na Nova Zelândia terá o mesmo efeito acelerador que uma em Cabo Verde, na Guiné-Bissau ou na ilha de Santa Maria (Açores). Mas é aqui que as boas relações fazem a diferença, já que a competição é global. Porquê a Nova Zelândia e não Santa Maria? Ilha já com um destino aeroespacial definido e privilegiado, porque isenta de poluição luminosa e radiofrequência! Ora Marrocos pediu em 2012 apoio a S. Tomé e Príncipe para obter o estatuto de Observador da CPLP, que ainda se mantém em negociação. Talvez seja o Espaço que o nosso Tenente-Coronel Pedro Silva Costa definiu "como o melhor domínio para a cooperação internacional", a ajudar a alavancar esta vontade marroquina de integrar a lusofonia formal e esta, formalmente lhe dê chão para que do céu conquiste a "Terra Prometida" a que naturalmente tem direito!

Resta-me agradecer ao IUM a oportunidade de participar nesta formação de altos quadros da lusofonia e ao nosso Tenente-Coronel Pedro Silva Costa pela disponibilidade e colaboração neste artigo. Bem-hajam!


Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt (em reparação)
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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