Pelé, Garrincha, Marcola, Beira-Mar

Quinto maior país do mundo em área, quinto maior país do mundo em população, riqueza ecológica e de subsolo ímpares mas só o 13.º PIB do planeta e, muito mais grave, apenas o 84.º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil vive há séculos deitado num divã de um consultório de psiquiatria, transtornado por sentir que não é tudo aquilo que poderia ser, que não brilha como poderia brilhar, que não lidera como poderia liderar.

Algures a meio do século passado, entretanto, surgiu uma espécie de terapia compensatória para o suposto complexo de inferioridade, a que Nelson Rodrigues celebremente chamou de complexo de vira-lata (cão rafeiro), do paciente psiquiátrico: o futebol. Graças a ele, o Brasil tornou-se, finalmente, o melhor do mundo e logo numa atividade praticada por todos os países do globo - a FIFA tem mais membros do que a ONU -, que mexe com os amores-próprios coletivo e individual e que desperta, como nenhuma outra, o orgulho nacional.

E por que razão o Brasil se tornou o melhor do mundo no futebol? Mais por pura matemática, claro, do que por bênção divina, até porque um país que tem o desplante de eleger Bolsonaro dificilmente pode voltar a reclamar ser abençoado por Deus.

Por um lado, os quatro países mais populosos do que o Brasil - a China, a Índia, os EUA e a Indonésia - preferem outros desportos, permitindo ao país sul-americano assumir-se, de facto, como a maior das nações do Planeta Futebol. E, por outro, porque no futebol o Brasil exprime toda a sua gigantesca potencialidade: nele, ao contrário de todas as outras atividades económicas do país, não está vedada a entrada a largas parcelas da população, podem praticá-lo do inquilino do condomínio de luxo ao favelado.

Suponhamos que todos os brasileiros, incluindo os tais favelados, tivessem acesso a raquetas de qualidade e belos courts e certamente o país já teria produzido não apenas uns talentos bissextos da modalidade, como Guga Kuerten, mas uma porção de campeões de ténis.

E quando, por décadas seguidas, os mais de 20 milhões de favelados do país, fora outros tantos esfomeados e desabrigados, tiverem fácil acesso à medicina, ao direito, às engenharias e não apenas à fome, ao crime e à droga, quantas vitórias lhes estarão destinadas? Quando se deixar de falar na patética "meritocracia", num país onde uns comem caviar e outros ossos de galinha das lixeiras, e se incluir, de vez, os pobres no orçamento, quantos Pelés e Garrinchas se formarão?

Segundo Edu Lyra, fundador do Instituto Gerando Falcões, projeto que visa atender às necessidades de crianças e adolescentes carentes, "as favelas são uma mina de inovação, criatividade e talentos perdidos". Para ele, Marcola e Fernandinho Beira-Mar poderiam ser CEO de grandes empresas - por terem nascido e crescido na favela são os temidos líderes das duas maiores organizações criminosas do Brasil.

Todos os psiquiatras sérios a que o paciente Brasil recorreu ao longo dos anos deram basicamente a mesma receita para o seu transtorno: potencialize, democratize, futebolize o país e ganhará Copas do Mundo num conjunto de áreas. Em vez disso, o Brasil, péssimo paciente, preferiu tomar um remédio chamado Bolsonaro, espécie de cloroquina política, amarga e ineficaz. Tem de mudar imediatamente a medicação.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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