Pedir ajuda psicológica não é sinal de fraqueza

Iniciamos esta sexta-feira um novo período de confinamento, no contexto de um claro agravamento da situação pandémica no nosso país. Poderá durar até quatro semanas... quem sabe ao certo? Deparamo-nos, mais uma vez, com a incerteza e a imprevisibilidade, o isolamento, o medo de contágio, a ansiedade associada à possível perda de emprego e de rendimentos, a morte. Falamos de perdas. Perdas diversas, sucessivas e que, naturalmente, têm um impacto negativo na nossa saúde. E quando falamos de saúde, falamos de saúde física e psicológica, indissociáveis para uma sensação plena de bem-estar.

Os dados de diversos estudos nacionais e internacionais têm vindo a corroborar aquilo por que já esperávamos. Por um lado, um aumento de quadros depressivos e ansiosos na população em geral e, por outro, maior sofrimento psicológico (com sintomas de depressão moderada e grave, ansiedade moderada e sintomas de perturbação de stress pós-traumático) em grande parte dos portugueses que estiveram em quarentena ou já recuperados da covid-19 (veja-se o mais recente estudo coordenado pelo Instituto Nacional Ricardo Jorge, http://www.insa.min-saude.pt/instituto-ricardo-jorge-promove-estudo-sobre-saude-mental-e-bem-estar-em-tempos-de-pandemia/).

Apesar desta realidade, em que diariamente se salienta a importância do autocuidado e da intervenção a nível da saúde mental, observa-se ainda a uma diferença muito significativa na forma como se perceciona a ajuda médica e a ajuda psicológica.

Pedir ajuda médica é por todos nós considerado como algo perfeitamente normal e expectável. Ninguém nos censura quando dizemos que temos diabetes, asma, cancro ou outra doença qualquer. Pelo contrário, somos de imediato escutados, compreendidos e encorajados a procurar especialistas.

O mesmo não podemos dizer em relação à saúde mental. Muitas pessoas sentem vergonha (sim, vergonha) em reconhecer perante si mesmos e, também, perante terceiros que se sentem ansiosos, deprimidos ou que experienciam qualquer outro sintoma. E quando esse reconhecimento surge, ainda é frequente ouvir-se dizer que "tudo se resolve se pensarmos de forma positiva", "tens é de descansar" ou "não penses mais nisso, que isso passa".

Há uma desvalorização do sofrimento psicológico, olhando-se para quem sofre como alguém que é fraco, inferior ou incapaz. E, neste contexto, persistem ainda os estigmas que urge desmontar.

É fundamental mudarmos a narrativa e assumirmos, sem vergonha nem receio, que o sofrimento psicológico é tão importante quanto o sofrimento físico, influenciam-se mutuamente e, por isso mesmo, devem ser ambos tidos em conta com a mesma atenção. Pedir ajuda psicológica não é um comportamento dos fracos, mas antes um sinal de que se acredita num processo de mudança e que se está disposto a percorrer esse caminho.

Eu já pedi ajuda psicológica. E você?

Psicóloga clínica

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