Os sinos de Bled

Na Eslovénia há um lago fundo e belíssimo, dizem, que eu nunca o vi. Tem dois quilómetros de comprimento, um quilómetro e meio de largura, situa-se nos Alpes Julianos, na fronteira com a Itália e a Áustria. Entre densas florestas e altas montanhas, é uma paisagem assombrosa, a perder de encanto, com grandes formações de calcário e dolomite cujas origens, glaciares e tectónicas, remontam a mais de 15 mil anos. No centro do lago, uma pequena gema, uma ilha que já era habitada 800 anos antes de Cristo e onde os arqueólogos desvendaram um cemitério neolítico com mais de 100 sepulturas. Por ela passaram povos eslavos, invasores francos, reis e bispos germânicos: Henrique II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, construiu o castelo de Bled em 1004 e, no mesmo ano, cedeu a posse da região ao bispo de Brixen, em reconhecimento pela ajuda dada pela Igreja ao fortalecimento do poder imperial a norte de Itália. Durante 800 anos, Bled pertenceria aos bispos-príncipes de Brixen, passando para a suserania da Áustria nos alvores do século XIX, logo a seguir para o domínio de Napoleão, retornando depois aos austríacos, de novo para os bispos de Brixen, e, com a dissolução do Império Austro-Húngaro após a Primeira Guerra, para o rei da Jugoslávia.

No período de entre-guerras, converteu-se em local de refúgio ou de encontro das casas reais da Roménia, da Grécia, da Checoslováquia, foi visitada pelo duque de Kent, tio de Isabel II, que nas imediações conheceu e ficou noivo de Marina, princesa da Grécia e da Dinamarca. Em 1941, seria ocupada pelos nazis e tornou-se um dos lugares favoritos de Himmler, o qual, na sua loucura, chegou a pensar demolir a igreja da ilha, dedicada a Nossa Senhora, para ali erguer um templo a Odin, fazendo do lago de Bled um centro de culto pagão aos antigos deuses germânicos. No pós-guerra, em 1947, Tito construiu uma residência nas suas margens, um ano antes de se afastar dos soviéticos para fundar o movimento dos não-alinhados. Bled tornou-se então um local de encontros diplomáticos e visitas de Estado, recebendo Krutschev, Ceaucescu, Kadar e outras peças.

É espantosa a quantidade de História que se acumula naquele pedaço de terra, um pequeno lago na cordilheira dos Alpes, famoso pelos tratamentos clínicos aí fundados em finais do século XIX pelo naturopata suíço Arnold Rikli e por uns bolos com creme, kremna rezina, da opulenta tradição pasteleira Habsburgo, hoje protegidos como tesouro gastronómico. Bled é um local sagrado desde tempos imemoriais, nela existem vestígios de um templo dedicado a Ziva, a deusa eslava do amor e da fertilidade, mas a construção mais majestosa, que ocupa quase a superfície inteira da ilha, é a Igreja da Assunção de Maria, cuja forma actual data de finais do século XVII, mas em cujo interior, de luminoso barroco bávaro, ainda se podem admirar frescos góticos pintados cerca de 1470. O acesso à ilha faz-se através de umas pequenas barcaças de madeira, as pletna, semelhantes às gôndolas venezianas, que uns dizem remontar à Idade Média, garantindo outros que datam do Renascimento.

Em 1740, Maria Teresa de Áustria atribuiu a 22 famílias da região o direito exclusivo de transportar os peregrinos até à ilha, e ainda hoje muitos barqueiros de Bled são descendentes dessas gentes. Todos os anos, milhares de turistas sobem a escadaria lavrada na pedra em 1655, 99 íngremes degraus que os levam do ancoradouro até à igreja, com a sua torre de 52 metros. Muitos deles são jovens casais, pares de noivos ou de namorados, que aí se encaminham por causa de uma tradição antiga, a crença segundo a qual a Virgem concederá a sua bênção a quem fizer soar o pequeno sino, feito em 1534 por Francesco de Pádua.

Esse não é, porém, o único sino de Bled. Segundo outra velha lenda, uma dama do castelo terá vendido todo o seu ouro e as suas jóias para que fosse fabricado um sino em memória do marido, assassinado por bandidos e salteadores. Contudo, no transporte para a ilha, houve uma tempestade, naufragou a pletna em que seguia o sino e este foi repousar para sempre nos imperscrutáveis leitos do lago de Bled. Diz-se que, de quando em vez, vindo das profundezas das águas, o seu troar ainda se ouve, ecoando nas margens e nas montanhas vizinhas.

Não sei se terá sido nesta lenda que Iris Murdoch se inspirou para o enredo de O Sino, romance de 1958 que conta uma outra história de sangue e tragédia: no século XVI, uma freira tinha um amante secreto, que um dia, ao escalar de noite o muro do convento, caiu e morreu; a abadessa apelou para que a monja culpada confessasse, mas, ao não ter sucesso, recorreu ao bispo, homem santo e espiritual, que fez idêntica exortação, também infrutífera; o bispo, então, amaldiçoou a abadia e, ao fazê-lo, o sino voou da torre e afundou-se num lago próximo; esmagada por este sinal de desfavor celeste, a freira culpada precipitou-se dos portões do convento e foi afogar-se nas águas; dizia-se que o sino, de nome Gabriel, às vezes tangia no fundo do lago e que, quando o seu som era ouvido, tal era prenúncio de morte próxima.

Por toda a Europa há histórias de sinos irrequietos, que fogem ao controlo e ao domínio humanos, tal qual certos computadores da Google que, soubemo-lo por estes dias, são dotados de suprema inteligência e assustadora senciência. Em casos de maior inquietude, há badalos que têm mesmo de ser domados e presos por cordas e por correntes: no Wiltshire, Inglaterra profunda, um sino que foi lançado ao rio aproveitou-se da escuridão da noite para voltar à superfície e regressar ao lugar de origem, para gáudio da população; em Nottinghamshire, reza a lenda que um terramoto que ocorreu em tempos imemoriais engolira uma aldeia inteira - no dia de Natal, o povo reunia-se no local da tragédia para ouvir os sinos da infortunada aldeia, que continuavam a tocar das profundezas da terra; em Crose Mere há uma história parecida com uma povoação submersa pelas águas, como existem histórias de sinos que tocam no fundo do mar, onde se encontram por terem naufragado os navios que os transportavam (é lenda existente em Port Royal, nas Índias Ocidentais, na ilha de Jérsei, e nas costas da Cornualha). Na música, recorde-se a obra de Debussy La Cathédrale Engloutie (nos Préludes, Livro I, n.º 10), inspirada numa antiga lenda bretã, segundo a qual nas alvoradas límpidas, quando a água está transparente, a Catedral de Ys, submersa no mar, emerge lentamente ao som das vozes dos sacerdotes e do repique dos sinos (o tema da "catedral submersa", aliás, iria ser explorado também por Claude Monet e pelo ilustrador M. C. Escher). A peça O Sino Submerso (1897), do dramaturgo alemão Gerhart Hauptmann, conta a história pungente de um famoso fabricante de sinos, Heinrich, que sonhava um dia produzir um sino de som tão cristalino e perfeito que, quando colocado numa capelinha no alto de uma montanha, seria ouvido em todo o mundo. Uma vez fabricado o sino, Heinrich levou-o ao cimo da montanha num carro puxado por oito cavalos, atrás do qual todo o povo da aldeia seguiu em cortejo; a dado passo do percurso, porém, uma das rodas do carro partiu-se, precipitando o sino num lago e deixando o desafortunado sineiro gravemente ferido. A partir daí, o drama associa a convalescença de Heinrich à sorte do seu sino. E, no final, o som do sino submerso só é resgatado do fundo do lago quando a filha de Heinrich, Rautendelein, acede a casar com Nickelmann, o espírito das águas.

Também entre nós houve e há sinos que fogem, como o da freguesia de S. João da Falada, em Marco de Canavezes, onde o povo andou em trabalhos por causa de um sino que tentava fugir da torre da igreja para cima de uns penedos: várias vezes o foram lá buscar, outras tantas escapou o sino, até que se decidiu edificar uma igreja nesses penedos e só assim sossegaram os ânimos, sineiros e humanos. No Tâmega, um sino mais irrequieto saiu da igreja e foi esconder-se no rio, por baixo da ponte. Já o da igreja de Paços de Gaiôlo cometeu a proeza de aparecer no Castelo de Fandinhães, onde foi encontrado por pastores; e o da igreja de Várzea de Ovelha foi parar ao Cruzeiro, sem se saber como e porquê.

Há muitas histórias de sinos que fogem, sinos enterrados que só dão sinal de si quando alguma fada os descobre ou certo encanto se quebra ou de sinos que tocam sozinhos. Até no Japão se acreditava em sinos que tangem a solo, sem intervenção humana, e quem duvidasse de tamanha proeza seria perseguido pela má sorte até ao fim dos seus dias. Sempre que um novo Papa era designado, o sino de prata da catedral de Avinhão punha-se a tocar sem auxílio algum. E em Portugal, em pleno século XX - mais precisamente, em Outubro de 1955 -, muitos julgaram, sem pestanejar, que os sinos de Balsamão haviam tocado espontaneamente por alturas da trasladação dos restos mortais de Frei Casimiro de São José Wyszynski - e chegou a abrir-se processo para indagar se se trataria de milagre que justificasse a beatificação ou a canonização do venerável frade... Também em Coimbra reza a tradição que os sinos de Santa Cruz tocaram por si, sem serem tangidos, quando ali chegaram as ossadas dos santos Mártires de Marrocos. Noutros casos, afirma-se que são os céus que fazem tocar os sinos: no Porto, corria a lenda de que, às dez horas na noite de São João, quem tivesse o ouvido apurado conseguia ouvir os sinos da igreja de São João das Fontes serem tangidos por anjos. Talvez seja por causa destas ou doutras lendas que se diz, na tradição oral, que estão a ser fabricados sinos quando uma pessoa mente. Nas imediações de Vizela, corre mesmo a história de que é necessário inventar uma grande mentira para que os sinos tenham boas vozes; por isso, sempre que um sino vem da fundição para ser colocado, o povo apressa-se a conceber uma grande patranha.

Os sinos que tocam por si não são, como é óbvio, um exclusivo nacional, longe disso, havendo exemplos na Alemanha e em Aragão. Deste último dizia-se que na sua fundição tinham entrado as trinta moedas de Judas e, talvez por isso, o sino só tocava em ocasiões funestas - uma delas ocorreu em 1578, vaticinando a morte trágica de D. Sebastião nas areias de Alcácer-Quibir. Mas há também sinos miraculosos, muitos, como o Bell of Blood, que a tradição diz ter sido oferecido por São Patrício, e que tem o raro poder, entre nós atribuído a Santo António, de encontrar o paradeiro de objectos perdidos.

Os sinos estão tão presentes na história e na cultura da Europa e do mundo que, por vezes, surgem disputas em seu redor. Em Portugal, no tempo da Ditadura Militar, um edital do governador civil de Évora, proibindo o toque de sinos fora de horas, gerou uma crise política tão grande que levou até à queda do governo, contribuindo de forma decisiva para a ascensão de Salazar ao poder, e, ainda recentemente, em Março de 2006, um tribunal de Madrid recusou um pedido feito pelo Estado português para que lhe fosse restituído, de acordo com uma directiva de Bruxelas sobre devolução de bens culturais, o sino que supostamente Cristóvão Colombo levou na nau Santa Maria. E, aliás, em várias igrejas do Algarve - igreja das Freiras, em Lagos; na matriz de Ferragudo; na Misericórdia de Aljezur - existem sinos com inscrições inglesas, provavelmente resgatados de navios britânicos que naufragaram ou deram à costa nessas paragens.

Noutros casos, muitos, os sinos davam sinal de perigo, tocavam a rebate para reunir a população, sempre que era necessário acudir a algum desastre ou erguer-se em luta por qualquer motivo. Assim os encontrámos na crise de 1383-85, no episódio da morte do bispo em Lisboa, na Baía sempre que um navio de piratas era avistado ao largo, em Elvas, Arcos de Valdevez ou em Bragança, aquando das invasões francesas, nas guerrilhas algarvias do Remexido, nas lutas entre liberais e miguelistas, nos alevantes açorianos contra a Primeira República e, lembra-o Moisés Espírito Santo, nas jacqueries nortenhas do Verão Quente de 1975, que levaram à destruição de várias sedes do PCP ("ouviram-se os sinos de uma igreja a tocar a rebate e alguns dos presentes começaram a dizer que vinham aí camionetas das aldeias", escreveu, a partir de Leiria, Luís de Sttau Monteiro, então repórter do Diário de Lisboa).

Talvez percebamos a omnipresença dos sinos na História humana se soubermos que o seu uso para fins bélicos sempre fez parte da tradição dos maoris neozelandeses, que tocavam um sino chamado Pahu logo que entravam em guerra, e que Eurípides conta que os cavalos gregos eram adornados com pequenos sinos, que os soldados a pé também levavam consigo, para que o seu toque atemorizasse o inimigo.

Os ortodoxos orientais utilizavam os sinos para falarem directamente com as divindades, o que talvez explique o facto de o maior sino do mundo - o Tsar Kolokol, fundido em 1733 - se encontrar no Kremlin, em Moscovo. Tem 181 toneladas, um peso considerável quando comparado ao do sino da Catedral de São Paulo, em Londres, com cerca de 16 toneladas, e ao do Petrusglocke da Catedral de Colónia, de 25 toneladas (no Japão, o Grande Sino de Quioto, com as suas 155 toneladas de bronze, é considerado o segundo maior do mundo). No Kremlin pode contemplar-se ainda a Torre dos Sinos de Ivan, o Grande, que Napoleão - um amante dos sons dos sinos, que lamentaria em Santa Helena não mais ouvir o Angelus - mandou destruir quando as suas tropas retiraram de Moscovo, em 1812. Reconstruída dois anos depois, a Torre alberga 21 sinos, alguns dos quais com cerca de sete toneladas. Um outro sino famoso do Kremlin, o Reut ou Revun, de 32 toneladas, caiu duas vezes: da primeira, aquando da ordem de destruição dada por Napoleão, sofreu poucos danos; mais tarde, em 1855, nas cerimónias da coroação de Alexandre II, a sua queda provocou várias mortes. Com os despojos de um dos sinos vitimados por Napoleão seria fabricado em 1817 o sino Uspenskiy, de 64 toneladas. Mas, dos numerosos exemplares existentes no Kremlin, nenhum se compara ao já referido Tsar Kolokol ou Sino do Czar, o último sobrevivente dos grandes sinos moscovitas, fabricado por ordem da imperatriz Ana Ioannovna. Ainda que o processo de fusão do metal tenha sido extremamente rápido - cerca de 36 minutos -, a fabricação do sino arrastou-se durante vários anos e, quando a peça ficou pronta e começaram a ser feitos os adornos, um gigantesco incêndio deflagrou no Kremlin. A água usada para combater as chamas, combinada com o calor do fogo, abriu uma enorme fenda no sino, do qual se quebrou um bloco com mais de 11 toneladas. Desfigurado, o Tsar Kolokol nunca foi erguido, nem a sua decoração terminada, e durante 99 anos ficou tombado no chão. Em 1836, o arquitecto e engenheiro Auguste Montferrant construiu um pedestal onde o colocaram, aí se encontrando até hoje.

Não se pense, porém, que este é mais um exemplo de tragédia russa, pois também o Big Ben de Londres se partiu em Março de 1858, antes de ser erguido na torre de Westminster. De resto, o mais famoso sino norte-americano, o Liberty Bell, colocado em Filadélfia, quebrar-se-ia em 1752, antes sequer de ser testado o seu som. Refeito, quebrar-se-ia de novo no ano seguinte, ao ser pendurado, e acabaria por se partir definitivamente quando dobrou a finados pelo Chief Justice John Marshall, em 1843. Em 1915, o precioso sino, símbolo da independência norte-americana, seria transportado para uma exposição em São Francisco, mas o receio de acidentes - bem justificado, como se viu... - levou a que imediatamente se aprovasse uma lei determinando que, doravante, o Liberty Bell jamais podia sair de Filadélfia.

A circunstância de os três mais famosos sinos da Rússia, do Reino Unido e da América - a saber, o Tsar Kolokol, o Big Ben e o Liberty Bell - terem tido um destino funesto deve-se certamente a coincidência ou azar dos deuses. Mas a irmandade sonora e sineira que percorre o mundo inteiro - e a Europa, do lago de Bled à ponta de Sagres - talvez nos devesse obrigar a pensar um pouco nesta guerra hoje em curso. Aparentemente, mas só aparentemente, a economia russa está a sair-se melhor do que a nossa, graças ao petróleo e ao gás, ao controlo imposto pelo Kremlin, e sobretudo graças ao facto de o povo russo ser muito mais resiliente e predisposto a sacrifícios do que as comodistas e consumistas gentes deste Ocidente. No entanto, seja qual for o epílogo da actual guerra, há já um desfecho à vista - todos iremos sofrer e pagar por ela.

Nesse aspecto, a imagem dos sinos quebrados da Rússia, da Grã-Bretanha e da América é muito mais do que metafórica, é o símbolo perfeito do que nos irá suceder a todos, a Leste e Oeste. Daí que fosse importante, de uma vez por todas, que os dois lados da contenda percebessem o que lhes dizem e gritam os sons dos sinos, cuja história, lenda e memória revelam que, para além de todas as diferenças, há uma comunhão espiritual e cultural que uma guerra não apaga e que perdurará muito para além do fim dos impérios e da queda dos ditadores. Se não agarrarmos a Rússia a esta tradição milenar, ela precipitar-se-á num amplexo de morte com a China, união que a breve trecho poderá ser fatal para o Ocidente e para todo o mundo (daí que a posição "equidistante" de vários países africanos, da Turquia, da Sérvia, da Índia ou do Brasil seja de uma inconsciência tremenda para todos, a começar por eles próprios). Também há sinos na China, os da novela Os Crimes do Sino Dourado, escrita em 1958 por Robert van Gulik, em que as vítimas eram encerradas dentro de uma imensa campânula de bronze, onde morriam à fome. Definhar e perecer dentro de um sino chinês - é isso que queremos?


Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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