Os partidos negacionistas

Desde 2009, a iniciativa A Palavra do Ano revela-nos qual é o foco anual dos portugueses. Em 2020 a escolha recaiu em "saudade", vencendo opções relacionadas com a "pandemia", desde logo a própria palavra, mas também "covid-19", "confinamento" ou "zaragatoa".

Em 2009 foi "esmiuçar", em 2010 foi "vuvuzela". Noutros anos a opção teve dimensão mais política, como "austeridade" em 2011, "entroikado" no ano seguinte ou "geringonça" em 2016.

Para 2021 está aberto o período de sugestões. O meu contributo é a palavra "negacionista". Sobretudo por ter abrangência, embora com recente notoriedade derivado aos fenómenos que negam a existência do vírus. Uma abrangência com impacto directo na gestão política do país, quando existem partidos que negam a realidade, tendo como consequência Portugal não sair, como se diz popularmente, da cepa torta.

Este negacionismo não é monopólio do partido de António Costa: o PS vai sendo acompanhado em muitas negações por Bloco de Esquerda e PCP, mais o satélite Verdes, além do PAN nos dias em que se encosta ao governo.

Uns e outros negam que Portugal está estagnado há 20 anos.

Negam que na última década temos sido ultrapassados em vários rankings por outros países do espaço comunitário.

Negam que crescemos abaixo da média europeia.

Negam que o SNS está em colapso, mesmo perante sucessivos alertas e notícias praticamente diárias de encerramento de serviços, demissões de responsáveis hospitalares e o abandono de mais de 700 médicos só em 2021.

Negam que o governo faz austeridade, passando a chamar-lhe cativações.

Negam que a riqueza do país, no essencial, se deve à iniciativa privada.

Negam que Portugal é o país europeu com mais baixo rendimento líquido de salários.

Negam que Portugal permanece com taxas de poupança das famílias abaixo da média europeia.

Negam o clima de crescente impunidade dos poderes públicos, começando pelo governo.

Negam o papel essencial do ensino privado, social e cooperativo.

Negam a existência de empresas públicas inviáveis, como a TAP, onde derretem milhões de euros dos contribuintes.

Negam a possibilidade de cada um ter a liberdade de escolher as melhores alternativas para o futuro.

Negam que Portugal é o quinto país europeu com maior percentagem de desemprego jovem.

Negam que a pobreza continua a aumentar.

Negam que Portugal tem mais de 1,6 milhões de pessoas a viver com rendimento inferior ao limiar de risco de pobreza, o mais baixo desde 2000.

Negam que Portugal é dos piores países mundiais em competitividade fiscal.

Negam que os preços dos combustíveis estão carregados de impostos.

Negam que há muitos portugueses sem alternativas ao uso de automóvel e motociclos, por carência absoluta de transportes públicos.

Negam sermos dos países europeus com facturas mais pesadas de electricidade e gás.

Negam que a nossa elevada carga fiscal é um obstáculo ao crescimento e à competitividade.

Uma a uma, estas negações são preocupantes. Pior é a soma de todas elas: contribuem para que os portugueses vejam sempre adiado o sonho de terem uma vida melhor.

Neste cenário de um país à beira do precipício, aquilo que o governo socialista apresenta como proposta de Orçamento do Estado para 2022 é o passo em frente que faltava para lá cairmos.

Seja agora, por arrufos à esquerda, ou em 2023, no calendário normal, é preciso virar a página do negacionismo.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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