Os melhores tempos

Uma das particularidades dos portugueses enquanto "povo" assenta na astúcia de improvisar. Essa e a eterna descrição do estado "vamos andando", por oposição à maioria dos demais povos que, por muito mal que se encontrem, conseguem usualmente descobrir em si um inovador "está tudo bem". Seja do triste fado ou só um costume, é difícil conseguir uma reação positiva no primeiro embate.

A verdade é que estes são os melhores tempos para se viver, mesmo em pandemia. Ainda em 1981, há 40 anos, a taxa mundial de pobreza extrema era de 42% da população. Hoje esse número está abaixo dos 10%. Quer isso dizer que em quatro décadas se mudou expressivamente o panorama da pobreza em termos mundiais.

E percebamos que a pobreza extrema é um conceito aceite internacionalmente como aqueles que vivem com menos de 2 dólares por dia. Vergonhosamente pouco. Contudo, em 2019, antes da pandemia, havia mais 325.000 pessoas por dia a ter o seu primeiro acesso a eletricidade, 200.000 a água canalizada e 650.000 a usar Internet.

O mesmo se passa com a taxa de mortalidade infantil. Na década de 50 do século passado, há 75 anos, 27% das crianças morriam até atingirem os 15 anos. Esse número em 2019 estava nos 4%. Este é também o momento onde a literacia adulta está perto dos 90% e no qual a força das meninas e das Mulheres tem ganho a relevância merecida e, portanto, começam a dar-se passos sólidos para a igualdade entre homens e mulheres.

O presente contínuo, ao contrário do que muitas vezes se sente ou pensa, sobretudo quando questionados acerca da época favorita para viver, é o melhor período para se viver! Ao recuarmos com estes dados presentes, facilmente se apreende que havia mais infelicidade porque se vivia menos, havia mais pobreza, mais fome e mais conflitos armados.

Por outro lado, o aumento da população mundial apresenta-se como um dos maiores desafios para a subsistência do planeta e da nossa espécie. E esse não está relacionado com a diminuição da mortalidade infantil.

Mas não é uma elevada taxa de natalidade que faz prosperar uma economia. Veja-se o caso do Bangladesh, cuja economia cresce mais neste século do que no passado, tendo uma taxa de natalidade que passou de 6.9 em 1973 para 2.1 em 2019.

A mortalidade infantil e a pobreza extrema são duas pragas que devem de ser combatidas até à exaustão, mas é também muito importante celebrar o progresso feito até agora. No presente, morre uma criança no mundo a cada 6 segundos. Todavia, há poucas décadas o número era o dobro, isto é, a cada 3 segundos.

É verdade que o mundo se encontra numa encruzilhada complexa, onde a tecnologia está a transformar profundamente as relações humanas, os modelos de vida e trabalho. Não obstante, volto a sublinhar que este é o melhor período para aqui se viver.

É preciso fazer ainda mais para alcançar a meta de eliminar a pobreza extrema definida pelas Nações Unidas. Já não resta muito. Temos pouco mais de 8 anos pela frente até chegar a 2030.

(fontes dos dados apresentados: Banco Mundial e Our World in Data)

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