A Alemanha está a frustrar as grandes ambições de Emmanuel Macron

A realidade é que Paris e Berlim já não são aliados naturais

A lua-de-mel franco-alemã acabou. No início do ano, Angela Merkel, a chanceler alemã, e Martin Schulz, o ex-líder do Partido Social Democrata, concordaram que a Alemanha iria encetar um diálogo significativo com Emmanuel Macron, o presidente francês, sobre a reforma da zona euro.

Como se viu, a agenda da zona euro era um projeto pessoal do senhor Schulz, não do SPD. Em fevereiro, quando ele saiu da liderança, o partido perdeu o interesse. A grande coligação está novamente no poder, mas agora sem o único projeto interessante que teria justificado a sua existência.

Olaf Scholz, o ministro das Finanças do SPD e o novo homem-forte do partido, não é um simpatizante da ideia. Em relação à importante questão de um sistema europeu de seguro de depósitos, ele é tão cético quanto o seu antecessor, Wolfgang Schäuble.

A oposição à reforma da zona euro no interior do partido de Merkel, a CDU, e no seu partido irmão da Baviera, a CSU, está mais forte do que nunca. O grupo CDU/CSU no Bundestag rejeita todos os itens da agenda de reforma de Macron à exceção de um. Eles não querem um Mecanismo Europeu de Estabilidade alargado, o guarda-chuva de resgate, nem um orçamento único da zona euro. E, tal como o senhor Scholz, eles não querem um sistema de seguro de depósito europeu até que os bancos italianos consigam livrar-se da maioria do crédito malparado nos seus balanços.

Eles também não querem o alívio da dívida grega. A única ideia de reforma para a qual existe algum apoio é a de um respaldo orçamental ao fundo de resolução bancária, algo que já deveria ter acontecido há muito tempo.

A mensagem é clara: a Alemanha está a dizer não a Emmanuel Macron no que respeita à reforma da zona euro, pelo menos no essencial. Pode ainda haver algum acordo simbólico, talvez um pequeno orçamento da zona euro sem significado macroeconómico. Para cúmulo, Merkel também descartou preventivamente o envolvimento alemão na ação militar contra o regime sírio.

Pergunto-me como serão recebidas essas duas mensagens alemãs. A França está agora exatamente na posição para a qual Marine Le Pen, líder da Frente Nacional de extrema-direita, alertou: uma união monetária em que a voz de França conta pouco e numa situação geopolítica em que o Reino Unido é o parceiro mais confiável.

O entusiástico apoio de Macron à integração europeia contrasta com a realidade política inalterada de a França e a Alemanha já não serem aliadas naturais. Ao contrário do que acontece em França, os partidos pró-europeus na Alemanha estão em retirada. O partido de Merkel perdeu um milhão de votos para os Democratas Livres e para a Alternativa para a Alemanha, ambos defensores de políticas que levariam à destruição da zona euro. Sessenta deputados da CDU/CSU votaram contra o programa de apoio à Grécia em 2015. Se enfrentasse hoje uma rebelião semelhante, a grande coligação já não teria maioria.

Tudo isto torna impossível a reforma da zona euro? Eu penso que não. O prazo de junho para a apresentação das reformas foi escolhido porque Emmanuel Macron precisa de algo concreto para mostrar antes das eleições europeias em maio de 2019.

Como defensor de longa data da reforma da zona euro, encontro-me na posição pouco comum de defender uma retirada tática. Seria preferível esperar por um momento melhor para insistir nas duas questões que realmente importam, não estando nenhuma delas na agenda agora: a criação de um ativo seguro único ou de um título da zona euro; e a separação legal e política dos governos nacionais e os seus bancos.

Os reformadores devem explorar o facto de que os grandes e persistentes excedentes em conta-corrente dos países do norte da zona euro os tornam vulneráveis a uma súbita interrupção dos fluxos comerciais. Só uma crise existencial que ameace a própria sobrevivência da zona euro tem o potencial de lhes mobilizar a atenção. Um excedente em conta--corrente muito grande torna-nos fortes nos tempos bons mas fracos nos maus. Agora não é o momento de arrancar concessões à Alemanha ou à Holanda.

A alternativa é desperdiçar um capital político escasso em reformas fracas. Também teríamos de aceitar condições que poderiam aumentar a instabilidade financeira, como a exigência da Alemanha de uma reestruturação de dívida semiautomática ou limites na detenção de títulos soberanos pelos bancos. Se a alternativa é um grande salto na direção errada, ficar quieto seria um progresso relativo.

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