Sobre o Estado da União (2/2)

No discurso sobre o estado da União, o presidente da Comissão Europeia revelou um incontido optimismo económico. É verdade que os nossos processos mentais são muito influenciados pelos resultados mais recentes, mas se nos quisermos manter razoavelmente racionais convém não perder a perspectiva mais longa que enquadra tais resultados.

É verdade que, recentemente, a União Europeia (UE) tem crescido marginalmente mais do que os Estados Unidos e isso é positivo. Mas convém ter presente que, desde o pico (2007-08) que precedeu a Grande Recessão até ao final de 2016, o PIB per capita dos EUA cresceu 4,5%, o do Japão 4,1% e o do grupo de países da UE que estão fora do euro 8,7%. No mesmo período, o da zona euro (incluindo os países que nela entraram pelo caminho) cresceu apenas 0,6%. Mas se nos ativermos apenas ao núcleo fundador do euro (EA12), o crescimento praticamente desaparece (0,2%). E se deste grupo tirarmos a Alemanha, o PIB per capita do conjunto restante ainda estava em 2016 quase 2% abaixo do pico de 2007. O que quer dizer que ao fim de quase uma década o grupo ainda está mais pobre do que estava antes da crise.

Mas se "abrirmos" a zona euro o cenário piora. Se no grupo fundador agruparmos os países pelas afinidades de cultura ou de preferências sociais, mais facilmente identificáveis, e criarmos duas "sub-regiões" - a Germânia, composta pela Alemanha, Holanda, Bélgica e Luxemburgo, e a Sulândia, integrando a Grécia, Itália, Portugal e Espanha -, verificamos que naquele período o PIB per capita da Germânia cresceu 4,2%, enquanto o da Sulândia perdeu 8% - uma diferença de mais de 12 pontos percentuais - agravando um fosso económico-social que já não era pequeno. (O grupo dos países restantes cresceu 2,2%).

Durante o mesmo período, a Sulândia criou cinco milhões de desempregados e a Germânia quatro milhões de empregos (quase todos na Alemanha). A Sulândia passou de um défice externo para um superavit, muito à custa da contenção da procura interna, enquanto a Germânia aumentou o seu excedente externo, muito também por conter a sua procura interna, do que agregadamente resultou um défice de procura interna na zona euro. Um estudo recente (http://voxeu.org/article/new-data--base-actual-and-equilibrium-exchange-rates) veio confirmar o que já aqui escrevi, há uns meses, que a Alemanha se tinha tornado um problema para o euro e o euro um problema para a Alemanha. As taxas de câmbio reais (preços relativos) dos países integrantes da zona euro estão bastante desalinhadas. Os desalinhamentos mais importantes, pela dimensão das economias, são os da Alemanha e da Holanda, cujas taxas de câmbio reais estão 20% e 18%, respectivamente, abaixo do seu valor de equilíbrio.

Simplificando muito a linguagem, para melhor compreensão dos leitores menos versados nas tecnicidades económicas, isto é como dizer que aqueles países estão a fazer dumping dos seus produtos no mercado internacional, vendendo-os 20% abaixo do "preço de mercado". E por isso têm vindo a acumular crescentes excedentes comerciais, que são a principal causa do excedente da zona euro que atrás referi, hipertrofiando o sector externo das suas economias à custa do subdesenvolvimento do mercado interno e da predação das economias mais frágeis, o que constitui uma ameaça real à integridade do euro.

No passado pré-euro, este tipo de desalinhamentos durava pouco, resolvendo-se com a revalorização nominal do marco alemão e do florim holandês. Não podendo agora a taxa de câmbio nominal do euro ajustar--se aos desequilíbrios internos, estes só podem ser resolvidos por alteração da política económica daqueles dois países, que, entre outras coisas, terão de envolver uma "revalorização interna" (o contrário do que foi imposto pelas troikas às economias com desalinhamentos simétricos, objecto de ajustamento) e/ou a expansão das respectivas procuras internas. Ou com a institucionalização de mecanismos que promovam a reciclagem interna (à zona euro), sem dívida, dos seus excedentes externos, por forma a manter a procura interna da zona euro em níveis capazes de absorver os recursos produtivos disponíveis e evitar a "exportação" de empregos. Caso contrário, a divergência económica que este desalinhamento cambial gera, com a Alemanha a enriquecer à custa do empobrecimento relativo dos outros, é politicamente insustentável.

Como referi no artigo anterior, o caminho visionado por Juncker vai no sentido lógico de resolver a contradição em que assenta o euro e que, enquanto durar, o manterá na corda bamba. Mas, não tendo dedicado uma única linha à identificação destes problemas e à forma como poderão ser resolvidos, é como discutir os acabamentos de uma casa sem saber se há tijolos para a construir.

E os tijolos dependem da resposta a duas questões fundamentais: i) como assegurar a convergência económica e social dentro da zona euro por forma a prevenir o continuado empobrecimento relativo da Sulândia? ii) que garantias podem ser dadas à Alemanha de que a não tornarão a Santa Casa da Europa se abdicar de um quadro mental que lhe deu segurança e prosperidade desde o final da guerra?

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