Pasmo no comando

Que Estado é este que gasta metade da riqueza anualmente produzida e não consegue assegurar a defesa e a segurança interna das populações, nem sequer da sua propriedade?! E por quem ninguém de direito se responsabiliza ou dá a cara? A ponto de ter de ser o Presidente da República, numa intervenção exemplar, a preencher o vácuo de liderança. E esclarecendo definitivamente que há tempo de afectos e há tempo de comando, respondendo, implícita e apropriadamente, ao desafio que a líder da comissão de vítimas de Pedrógão lhe lançara numa memorável entrevista ao Expresso de há semanas atrás. E refutando, pela acção, uma crítica que em Junho aqui lhe fiz.

A reacção às tragédias com que o país se tem visto confrontado fez-me lembrar o relato de Marc Bloch sobre o paralisante pasmo que caiu sobre o comando francês aquando da derrota frente à inesperada invasão alemã, em 1940, referindo, nomeadamente, o caso de um general paralisado "em estranha imobilidade, nada dizendo, nada fazendo, olhando para o mapa espalhado na mesa entre nós, como se esperasse nele encontrar a decisão que ele era incapaz de tomar" (L"Étrange Défaite).

Olhando retrospectivamente, não deixa de ser perturbador que o governo e os partidos que o apoiam tenham passado as últimas semanas numa barganha orçamental, a cuidar das respectivas clientelas eleitorais, mas da qual esteve gritantemente ausente a premente necessidade de responder ao desafio deixado pela tragédia de Pedrógão e que, ironia do destino, voltaria a desabar no centro e Norte do país. E que a única mudança significativa, desde Pedrógão, tenha sido no comando da Protecção Civil, não por causa do que aconteceu, mas por causa de uma licenciatura administrativa.

Dada a manifesta ausência orçamental e o caderno de encargos que o PR deixou em cima da mesa, ou muito me engano ou o governo vai finalmente ser confrontado com o fim da ficção de que é possível distribuir tudo a todos, sem faltar dinheiro noutros lados, como se este proviesse de uma arca sem fundo.

Manter a ficção já não vai ser possível só com cativações e com os truques da Saúde, onde, para além da acumulação de dívida visível aos fornecedores, já há hospitais a adiar disponibilizar-lhes as referências dos compromissos, impedindo-os de, ao menos, recorrerem ao factoring para financiarem os seus adiantamentos ao Estado e criando-lhes situações insustentáveis. É que sem a emissão dos compromissos, a dívida não é reconhecida na contabilidade do Estado e assim há fornecimentos a serem pagos, efectivamente, a 600 dias (embora as estatísticas oficiais não o mostrem).

Questões políticas e ideológicas à parte - matérias onde o governo não tem de agradar a todos e nas quais, muito bem, se diferencia na disputa democrática -, a grande fragilidade deste governo está na falta de capacidades de administração e gestão. Que nada têm que ver com capacidades técnicas ou analíticas. E que envolvem, entre outras de uso mais recorrente, a capacidade de coordenar operações complexas e a capacidade de liderar em crise, dando a cara e assumindo a responsabilidade pelas organizações que se dirige, quando as coisas correm mal, mesmo que a responsabilidade desse mal não seja directamente do líder, mas dos seus subordinados, e agir rapidamente para corrigir tais males e evitar a sua repetição, promovendo a confiança e a segurança à sua volta.

Esta fragilidade ficou especialmente patente na gestão destas tragédias, mas é mais generalizada, apesar de, noutros pontos, estar protegida por eventos mais favoráveis. Os acidentes da natureza não são controláveis, mas as capacidades de administração e comando revelam-se na eficácia da sua prevenção e no controlo dos seus efeitos adversos. E, quando faltam, há que reparar a falta rapidamente.

Nunca passaria pela cabeça de um general manter no comando de uma unidade essencial da manobra do seu exército um oficial que tivesse sido derrotado em sucessivas batalhas. O oficial até pode ser um excelente oficial de estado-maior e até poderá vir, mais tarde, a mostrar que foi mais vítima da má sorte do que da falta de engenho. Mas mantê-lo à frente da manobra fragilizaria definitivamente a eficácia do exército e, em particular, da unidade em causa.

Elogiei aqui, há tempos, a habilidade, com talento e sorte, que envolvera a formação e condução deste governo e que pressagiava a sua fácil transposição de legislatura, como a recente eleição autárquica parecia confirmar. Hoje, depois do repetido desnorte mostrado na condução das crises que a sorte lhe interpôs no caminho, cobrando porventura o muito que já lhe deu, já não estou tão certo disso. Muito terá de mudar na sua capacidade de manobra para superar um futuro em que, praticamente esgotadas as facilidades e erodida a confiança, as coisas se vão tornar cada vez mais difíceis.

E imagino a angustiada perplexidade em que os eleitorados dos dois partidos da margem política se encontrarão, ao verem-se envolvidos no peso das responsabilidades que estavam habituados a despejar assanhadamente em cima dos outros. Enfim, é a vida...

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