Excessos presidenciais

O actual Presidente da República trouxe um importante contributo à política portuguesa: a dimensão afectiva. Dimensão já tentada por outros políticos, sem nunca conseguirem disfarçar inteiramente o artificialismo das tentativas, acabando numa vistosa expressão emocional, mas sem eficaz ligação afectiva. Com Marcelo Rebelo de Sousa, a ligação afectiva é mesmo real. Quando abraça a senhora num bairro social, ou o senhor num meio rural, estabelece uma real intimidade física e emocional, como se estivesse a abraçar parentes próximos. E acredito que quem recebe os abraços sente a verdade do gesto.
É uma dimensão importante, que faltou sobretudo nos tempos duros, que se vê recebida com gosto, e que certamente muito fará pela reaproximação do povo à classe política. Não será fácil de replicar, porque a sua eficácia muito deve à personalidade do protagonista, e Marcelo há muito que demonstrou estar com o mesmo à-vontade, e o mesmo sentido de pertença, a jogar ao chinquilho com habitantes do bairro de Chelas ou a cirandar entre ilustres palacianos. E isso não se imita.
A afectividade, porém, sendo politicamente importante, não é um programa político.
O Presidente tem um apurado sentido do que estrategicamente é relevante para o país e do que o condiciona, e condiciona a acção dos vários actores políticos. Vê mais adiante, como diria a voz popular, do que a maioria dos políticos e analistas. Contudo, o deleitado abuso do manobrismo táctico ofusca-lhe aquela capacidade.
Reveladoras, quiçá, de uma eventual pulsão narcisística são as suas omnipresença e loquacidade. O que, em linguagem popular, se poderá descrever como o "ir a todas" e "falar de tudo e de nada".
A magistratura de influência, como é a presidencial, também se exerce pela palavra, pelo que a palavra presidencial é importante. Mas, para que o seu valor se afirme, tem de ser usada com parcimónia. Seria isso, talvez, que De Gaulle terá querido sinalizar quando escreveu que "nada fortalece mais a autoridade do que o silêncio".
O Presidente tem produzido importantes discursos, sintéticos, didáticos e com reflexões profundas e úteis, a que, creio, não tem sido dada a devida atenção. Talvez, precisamente, pela banalização em que a frequência do seu uso fez cair a palavra presidencial. Frequência que, inevitavelmente, leva, por vezes, ao seu uso inapropriado, como foi, entre outros exemplos, a pública desvalorização que, pelo menos por três vezes, atribuiu ao Conselho de Finanças Públicas, importante instituição criada para assegurar um probo comportamento financeiro do Estado e, por consequência, a sua sustentabilidade financeira. Esta desvalorização institucional, pelo que representa do subconsciente político nacional, tem, entre outras consequências, mais impacto no juízo dos credores e analistas externos do que vinte retóricas promessas sobre rigor orçamental.
Mas onde os excessos são particularmente contraproducentes e desvalorizadores da função é no teatro de operações da gestão de crises e catástrofes, de que os exemplos mais recentes foram a queda do avião em Tires e o incêndio de Pedrógão.
A presença do Presidente da República nesses teatros, não tendo poderes executivos que permitam resolver ou agilizar seja o que for, só atrapalha quem está no terreno. Desde logo porque, não viajando sozinho, são várias pessoas, inúteis para o problema, a ocupar espaço e atenção, que, em gestão de crise, se tornam escassos. Depois, e sobretudo, porque vão dividir a atenção dos responsáveis pelas operações, e esta, para ser dada inutilmente aos visitantes, é desviada da tarefa principal. E, por fim, tudo o que diga - e este Presidente nunca ficará calado, seja em que circunstância for - acabará por ser redundante, na melhor das hipóteses, ou inadequado, como se viu em Pedrógão.
A palavra do Presidente pode ser útil, mas à distância, para dar alento a quem está no terreno e conforto moral às vítimas. A utilidade deste conforto - e no caso particular do actual Presidente, ele poderá ser muito útil e eficaz, pelas razões referidas no início - será no tempo subsequente à acção operacional e, aí sim, no terreno. Como ele próprio eficazmente mostrou, quando da catástrofe que assolou a Madeira e aonde ele chegou no tempo certo.
Por fim, o Presidente tem tido uma interpretação da, necessária e conveniente, solidariedade institucional com o governo que muitas vezes se confunde com o terreno mais movediço da solidariedade política. Além das circunstanciais conveniências tácticas de ambos os lados, tal confusão acabará por se lhes mostrar desvantajosa. Para o Presidente, porque mina a necessária percepção de independência partidária que deve ser inerente à função e ao reconhecimento da sua autoridade moral, e para o governo, porque acostumando-se ao "encosto" presidencial arrisca-se a descobrir, quando este lhe faltar por circunstância ou intenção, ter deixado atrofiar o músculo político da sustentação própria. Seja qual for o governo.
O Presidente é merecidamente popular, tem sido um saudável apaziguador social, e tem competências (e talento) indiscutíveis. Resta saber se, quando lhe for necessário exercer o inerente poder de última instância, os excessos para a popularidade não lhe minaram a auctoritas que do cargo se espera e o sentimento de segurança que deve inspirar.

Exclusivos