Coisas que não entendo

1. A organização militar é uma estrutura fortemente hierarquizada, com cadeias de comando muito bem definidas, orientada para o cumprimento de missões com objectivos e contornos também definidos, cuja acção é baseada, geralmente, em cuidada planificação e na qual nunca deve haver dúvidas sobre quem, a qualquer momento, manda em quê.

Sabendo isto, uma das coisas que me tem intrigado no caso de Tancos é que ninguém pareça ter-se dado conta de qual foi (é?), fazendo fé no que é informação pública, a principal falha de segurança do incidente, e involuntariamente revelada. É que, a não ser que me esteja a escapar alguma coisa, quando o responsável pelo Exército suspende cinco oficiais responsáveis pela segurança dos paióis de Tancos está a dizer que não há UM oficial responsável por aquela missão, ou que aquela missão não está devidamente definida. E isto - mais uma vez, a fazer fé no que é informação pública - é uma falha grave de organização militar. E, sendo assim, é um problema da exclusiva responsabilidade militar, só se tornando responsabilidade política se, uma vez conhecido pelo poder político, não for devidamente responsabilizado e remediado.

Perante isto, as demais falhas - vedações, videovigilâncias, rondas, etc. - parecem-me secundárias ou serem desta resultante. Porque se houvesse um comandante responsável pela segurança daquele perímetro, as outras falhas teriam sido atempadamente resolvidas, ou esse comandante teria feito saber superiormente que não tinha condições para cumprir a missão que lhe era atribuída, passando para cima a responsabilidade do seu eventual incumprimento. Caso contrário, a falha no cumprimento da missão seria da sua exclusiva responsabilidade.

Não havendo esse comando específico, a responsabilidade hierárquica pela missão, e pelo seu incumprimento, sobe ao nível acima, e não desce ao nível abaixo. Mas, em qualquer caso e como é inerente à organização militar, a responsabilidade estará sempre definida.

Por isso, e mesmo percebendo a complexidade da investigação do roubo em si mesmo, não entendo o jogo de passa-culpas ou de evasão de responsabilidades quanto à falha militar de segurança, que deveria ser aqui o cerne da questão. E não entendo porque é algo muito pouco militar. E é aqui que começa a responsabilidade política. A não ser, repito, que me esteja a faltar informação relevante.

2. Ainda sobre este assunto, não entendi a intervenção do senhor CEMGFA. Fiquei, entre outras coisas, sem perceber se o paiol de Tancos, que começou por ser um paiol de perigoso armamento militar, era afinal um mero depósito de material desactivado à espera de abate; se era um depósito, porque é que se alarmou o país e foi necessário comunicar aos parceiros da Nato; e se a referência ao papel dos cidadãos na defesa nacional se destinava a desvalorizar o papel das Forças Armadas. Por isso, não consegui entender nem o propósito, nem a lógica, nem a oportunidade da intervenção do principal chefe militar.

3. Outra coisa que nunca entendi muito bem é porque é que a oposição - seja ela qual for -, quando se verifica uma falha, ou suposta falha, do governo - seja ele qual for - desata a pedir a substituição do ministro ou secretário de Estado envolvido. É que para a oposição - seja ela qual for - o governo - seja ele qual for - é mau por definição, mesmo que, por acaso, faça coisas boas. Porque se o governo não fosse considerado mau pela oposição, a oposição apoiaria o governo (e deixaria de ser oposição).

Ora, se para a oposição um governo é mau por definição, uma falha deste é boa para a oposição, porque mostra que esta poderia ser melhor governo. Logo, qual é o interesse da oposição em que o governo melhore a sua eficácia substituindo o ministro ineficaz, piorando assim as perspectivas de a oposição se tornar governo? Mandaria a lógica que a oposição deveria regozijar com as falhas do governo e esperar que estas persistam, pelo que um ministro eventualmente ineficaz seria uma garantia de mais fácil reconhecimento dos méritos da oposição e, por conseguinte, do seu mais rápido acesso ao governo.

Percebo que o intuito perseguido pela oposição - insisto, seja ela qual for - nesse caso não é a melhoria da eficácia do governo, mas o seu desgaste junto da opinião pública. É uma espécie de fogo de flagelação que, não tendo um alvo preciso, tem como objectivo estratégico desgastar psicológica e materialmente o adversário, tornando-o vulnerável e facilitando o assalto final "ao castelo". Mas esta, como todas as estratégias que se tornam demasiado repetidas, rapidamente perdem a sua eficácia, pois os adversários - e as populações que se abrigam à sua volta - habituam-se ao incómodo, percebem que tais ataques trazem pouco perigo substancial e tornam-se imunes ao desgaste inviabilizando, dessa forma, o objectivo estratégico do mesmo.

O que faz retornar ao princípio da minha argumentação e às razões por que não entendo essa táctica de oposição que, pelo menos entre nós, deve ser a mais repetida, por todas as oposições, em todos os ciclos políticos.

Exclusivos