A Europa vai mudar

As recentes declarações da Sra. Merkel, após a visita, tida como desapontante, do Sr. Trump à Europa, e tendo presente a saída do Reino Unido da União Europeia, pressagiam importantes desenvolvimentos prospectivos no processo de integração europeia e mudanças na postura germânica face à união monetária.

As relevantes afirmações, tal como citadas pela imprensa internacional, foram de que "o tempo em que podíamos contar totalmente com os outros está de certa maneira ultrapassado... Nós, europeus, temos realmente de tomar o nosso destino nas nossas próprias mãos" (ênfase acrescentada). É possível que, como alguns referiram, a primeira conclusão seja precipitada e a autora tenha tomado a nuvem trumpeana pela Juno americana. Mas a Sra. Merkel tem suficiente tarimba política para se dar publicamente a estados de alma com encontros malsucedidos. Parece-me mais razoável tomar o desabafo como expressão de um reflectido juízo político, e reconhecê-lo como sinalizador da acção política que se seguirá à muito provável vitória eleitoral em Setembro próximo.

A Sra. Merkel e o Sr. Schauble têm sido muito demonizados na nossa praça pública e por certos sectores ideológicos por essa Europa fora. Porém, e revelador da consistência e profundidade dessas opiniões e do que é a roda da vida que a Amália cantava, a primeira iniciou entretanto o caminho da beatificação, desde que o Sr. Trump foi eleito para liderar a tabela demoníaca.

O que é facto é que os dois dirigentes alemães, como provavelmente uma boa parte da elite política germânica, são profundamente europeístas. Têm, na minha opinião e como aqui já expressei por mais de uma vez, uma concepção errada do funcionamento de uma união monetária, que tem causado desnecessários danos sociais e económicos, nomeadamente nos países mais fragilizados. Mas, tal como o amante desajeitado que maltrata involuntariamente o objecto do seu desejo, o mal infligido só erradamente pode ser tomado como prova desamor, pois é muito mais o resultado da trapalhona inabilidade na expressão dos afectos.

Neste contexto, a minha interpretação sobre as declarações da Sra. Merkel, que muito têm agitado os comentadores internacionais, é a de que a líder alemã percebeu que o contexto geopolítico da Europa e a postura americana face à geopolítica mundial mudaram significativamente. O Sr. Trump será a expressão mais histriónica desta última mudança, mas não será certamente um mero acidente de percurso. A concepção kissingeriana da política do equilíbrio de poderes entre as grandes potências e o correspondente reconhecimento e respeito pelas suas esferas de influência, parece ter voltado a Washington. Nessa concepção, será reconhecida à Rússia a legitimidade de proteger a sua zona de influência e é considerada responsabilidade primária da Europa, e não dos EUA, a de lidar com os atritos da correspondente dinâmica.

Confrontada com esta responsabilidade, a Europa terá de desenvolver a sua própria capacidade de afirmação e de defesa, passando a Nato a assumir um papel muito mais supletivo do que de primeira linha de acção (daí a polémica à volta do artigo 5.º). Desligando-se o RU da União Europeia, esta, se se quiser manter, e quiser ser relevante internacionalmente, terá de desenvolver as suas próprias capacidades militares (o que irá custar mais do que os 2% do PIB que não tem querido pagar à Nato...), mesmo que articulada com a de um RU "independente". O que coloca a Alemanha, pela sua dimensão e poder económico, no centro desta responsabilidade. E aqui entra a sensatez dos dirigentes alemães que, pela experiência histórica, percebem o perigo que é, para o seu próprio país e para a Europa, se a Alemanha assumir sozinha o papel de potência militar europeia.

Nestes termos, a solução vista como sensata é organizar um sistema de defesa europeia "supranacional" que desconcentre os poderios militares nacionais. Para isso, é necessário intensificar o processo de integração europeia e assegurar a sua integridade, o que implicará um caminho de maior integração política e uma maior coesão económica e social do bloco integrado.

Se esta declinação do pensamento da chanceler alemã estiver certa, poderemos esperar, após a eleição alemã, importantes desenvolvimentos em duas frentes. Na frente política, assistir-se-á a um reforço institucional das instâncias "federais" ou "federáveis" e a assunção de mais responsabilidades supranacionais por estas instâncias (um ministro das Finanças da zona euro será o primeiro passo). Na frente económica, veremos um abrandamento da rigidez alemã relativamente à união monetária, uma maior disponibilidade para mutualizações financeiras e um aumento do orçamento comunitário, com a "federalização" de algumas responsabilidades de seguro social (começando pelo subsídio de desemprego), hoje integralmente nas esferas nacionais.

A recente eleição do Sr. Macron em França e a sua louvável persistência nos princípios europeístas e liberais durante a campanha eleitoral, sem vacilar perante os papões populistas e protecionistas, facilitará certamente esses desenvolvimentos e, acima de tudo, fará retomar a eficácia do eixo franco-alemão e um seu funcionamento em termos mais equilibrados.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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