Sob as tílias, em Berlim

Na atual deriva europeia já nem a chanceler Merkel faz milagres. Contudo, uma clara manifestação, na reunião de hoje entre o PM português e a chanceler, de que Berlim não quer repetir Atenas em Lisboa poderá ajudar a aliviar a pressão negativa dos mercados sobre Portugal. Costa deveria reafirmar o que une os dois países, sem disfarçar a divergência face à austeridade como via única para finanças públicas sãs. Berlim e Lisboa partilham o facto de terem sido vítimas do egoísmo de muitos dos seus parceiros europeus. Portugal deveria reforçar Berlim numa política europeia de refugiados com responsabilidades partilhadas, em vez de transformar um problema humano num mero problema de segurança nacional. Como o fazem alguns dos países da UE, que lavam as mãos da imensa tragédia que a sua política de "mudança de regime" no Iraque, na Líbia e na Síria, ajudou a criar. Mas Portugal carrega um colossal fardo de dívida, cuja culpa deve ser partilhada também pelas falhas estruturais da zona euro e pelos próprios erros da resposta liderada pela chanceler. Há apenas oito anos, a dívida alemã e a portuguesa eram quase iguais, respetivamente, 65,2% e 68,4% do PIB. A crise financeira obrigou os dois países a endividarem-se para evitar o colapso financeiro (respetivamente mais 17,3 e 25,6 pontos percentuais até o início de 2011). Se em 2011 o BCE tivesse já em vigor o atual mecanismo de apoio condicional, mas "ilimitado", à compra da dívida pública, Portugal não teria sido empurrado para o resgate. A nossa dívida não teria disparado dos 94% para os atuais 130%. Sem resgate, muito sofrimento e destruição material teriam sido evitados. Os erros do passado corrigem-se não os repetindo. Para onde quer que a Europa vá, seja renovando a UE ou reerguendo-se das suas ruínas, nem mesmo Berlim poderá prescindir de aliados.

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