Setembro negro?

Já sabíamos que o País tinha hipotecado a sua soberania. O que desconhecíamos é que o nosso primeiro-ministro iria ferir a dignidade de todos nós, pois ela está compreendida no poder que o seu cargo transporta. Se a situação de dependência face a credores e prestamistas foi herdada por irresponsabilidades acumuladas que não podem ser atribuídas a Passos Coelho, a subserviência manifestada na viagem de despacho a Berlim, esse foi um desempenho tão voluntário quanto deplorável. Maior náusea do que a que nos causa ver o chefe do Governo a impingir a TAP e a EDP às companhias alemãs, é ouvi-lo a vender a alma, negando as eurobonds, com a vigilante chanceler Merkel a seu lado, quando há um mês as saudava como uma possibilidade positiva. O Governo de Portugal emudece, assim, perante a recusa do Governo alemão em compreender que só a solidariedade, ditada por razões de pura sobrevivência europeia, poderá evitar o pior. O combustível para a tragédia foi acumulado por muita gente (incluindo 15 anos de desmesurado endividamento em Portugal), mas a verdade é que só a Alemanha pode evitar o incêndio europeu. Ao contrário do que diz o ministro Schäuble, não é a austeridade que conduzirá a uma distante união política, que as eurobonds significariam. Pelo contrário, só a sinalização para os mercados, desde já, da decisão de maior integração política e económica, que a mutualização da dívida pública significaria, poderá fazer com que a Europa sobreviva ao furacão das dívidas soberanas, interiorizando duradouramente as regras de disciplina fiscal, orçamental e boa governação, que os alemães sensatamente defendem.

O mês de Setembro já começou com as Bolsas em declínio. Nos próximos dois meses, a Itália atinge o vencimento de dívidas que totalizam 77 mil milhões de euros. A Espanha terá de acertar contas no valor de 32 mil milhões. Os parlamentos europeus, incluindo o finlandês e o alemão, vão ter de votar o 2.º pacote à Grécia e a reforma do FEEF. Um destes dias, leremos na imprensa que a França saiu do clube dos países triplo A. Logo a seguir, a chanceler Merkel, depois de finalmente perceber que a Alemanha não está imune ao navio europeu que se afunda, virá clamar pelas eurobonds, que hoje abomina. Mas nessa altura, até para a Alemanha poderá ser demasiado tarde

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG