O nacionalismo como paixão triste

Em 1917, um sábio indiano, Rabindranath Tagore, refletindo sobre uma Europa devastada pela guerra, escreveu: "A ideia de Nação é um dos anestésicos mais potentes inventados pelo homem. Sob a sua influência, o povo inteiro pode levar a cabo o seu programa sistemático de egoísmo virulento sem ter a menor consciência da sua perversão moral." (R. Tagore, Nacionalismo, Livros de Bordo, 2017, p. 97). A perda das mínimas fronteiras morais iria mais longe, entre 1939-1945, quando o egoísmo nacionalista se transformou em racismo e este em genocídio industrial. Concordando embora no essencial com Tagore, importa reconhecer que a luta pela nação não tem de ser necessariamente virulenta. No século XIX europeu existiram movimentos patrióticos, que expressavam o anseio de liberdade e não a patologia de uma supremacia arrogante. Para Giuseppe Mazzini, unidade italiana significava liberdade dos italianos sem opressão para ninguém. Quando um grupo de patriotas irlandeses se levantou em armas na Dublin de James Joyce na Páscoa de 1916 - contra toda a probabilidade de sucesso - fê-lo sob a bandeira de uma República que prometia paz e amplos direitos, incluindo para mulheres. Quem conhece a secular e sombria história da ocupação inglesa da Irlanda e como os 16 principais líderes patrióticos foram sumariamente fuzilados logo após a rendição sabe que a revolta pode ser, no limite, uma forma de legítima defesa.

O choque de nacionalismos ocorrido em torno da Catalunha - entre o "espanholismo" de Rajoy e o "catalanismo" de Puidgemont - não atingiu a desmesura suicida que arruinou a Europa entre 1914 e 1945 nem o rito sacrificial da revolta irlandesa que deixaria sementes para o futuro. Contudo, depois do espasmo de violência policial para impedir um referendo ilegal, tudo se tem precipitado como num folhetim escrito por um argumentista medíocre. Era o grande Espinosa que considerava a tristeza como uma paixão que diminui a alma, paralisa o seu desejo de agir em acordo com os outros, a torna mais atomizada, servil e impotente (Ética, III). Na verdade, deste pronunciamento do independentismo catalão todos saímos tristes e derrotados. O governo de Madrid, por tentar sufocar desproporcionadamente um movimento que ignorou e desprezou por anos. O rei, por ter produzido um discurso de fação falando em nome da "maioria numérica" e não como superior reconstrutor das pontes para o diálogo e a reconciliação. A própria Catalunha, sequestrada por líderes independentistas erráticos, com uma agenda oscilando entre irrealismo e oportunismo. "Espanholismo" e "catalanismo" convergiram no dificultar duma profunda revisão da Constituição de 1978, única via para clarificar e dinamizar a realidade já federal do país vizinho. Ninguém sabe quanto tempo estas figuras mais pequenas do que os seus lugares vão continuar a alimentar a discórdia entre regiões e cidadãos. Contudo, uma coisa parece certa: neste período decisivo que se abre para reformar a zona euro, o projeto europeu sai também derrotado pela perda do contributo da Espanha. Nenhuma proposta de Madrid, se houver alguma, terá credibilidade para ser escutada com respeito pelos parceiros europeus. Anestesiados pela desconfiança mútua da paixão triste dos nacionalismos, os europeus, incapazes da paixão alegre da confiança recíproca, prosseguem amarrados ao risco de deixar abortar a esperança de um futuro comum. Mesmo que do outro lado só o caos espreite.

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