O cerco

O governo trava uma guerra em três frentes, cujo prognóstico é sombrio. Primeira. Em Portugal, o governo precisa de alimentar a sua coligação de investidura, que, combinando greves com palmadas nas costas de Costa, continua a viver num Portugal de antigamente, pobre, mas soberano. A má notícia é que, hoje, o país é apenas pobre. Segunda. No universo dos mercados a reputação de Portugal está a cair a pique. O que está a enfurecer os investidores internacionais, e a contagiar a nossa dívida pública e a banca italiana, foi a surpreendente decisão do BdP de Carlos Costa (com a conivência do BCE, que agora pretende sacudir a água do capote), em 29 de Dezembro, de aumentar o rácio de capital do Novo Banco, lançando 5 das suas 52 obrigações de credores seniores para o abismo do BES, impondo perdas de 100%, sem explicação de critérios, aparentemente, violando o pari-passu, o sagrado princípio financeiro de tratamento igual dos credores com dívida sénior em situações de falência. E o pior é que isso foi destacado numa crítica incisiva pela DBRS, a única agência de notação financeira que avalia positivamente a dívida nacional... Terceira frente. Para o OE 2016, a Comissão Europeia não acredita nem na "multiplicação dos pães", nem no "milagre das rosas". Em Bruxelas, a ortodoxia da austeridade continua a predominar sobre a lógica do aumento do rendimento das famílias. Tudo o que está a acontecer era previsível. O que é inaceitável é perceber que na área governamental há muita gente que continua a pensar que na política europeia os sorrisos e a simpatia podem suspender a lógica brutal da relação de forças. Se tudo se precipitar, o país não perdoará a António Costa ter tomado de assalto São Bento, em nome da esperança, para deixar tudo pior do que já estava.

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