O nosso futuro atacado em Berlim

Foi em 1988 que conheci verdadeiramente Berlim, durante intensos meses de estudo. Ao tempo, cidade sitiada, bem no centro da Guerra Fria. Muito longe de ser uma das grandes cidades cosmopolitas do mundo, ao lado de Nova Iorque, Londres ou Paris. Até à queda do muro, quem vivesse ou visitasse Berlim, sentia-se fechado numa ilha, cercado por muros e exércitos. Talvez por isso a visita à Igreja da Memória (Gedächtniskirche), erguida na Breitscheidplatz, bem visível para quem caminhe a partir da famosa avenida Ku"damm, fizesse parte dos meus itinerários de recreio. Não terá ocorrido uma semana em que não tivesse reentrado nessa igreja para partilhar o espírito da sua memória, que era sobretudo uma esperança. Originalmente, esse templo foi erguido pelo imperador Guilherme II, em memória do seu avô, no final do século XIX. Contudo, em 1988, essa igreja, ao lado da qual se cometeu mais um horrível atentado terrorista, representava o compromisso do povo alemão com a paz. A recusa de que as bombas que a destruíram voltassem a cair sobre Berlim ou sobre qualquer cidade europeia. Regressei a Berlim ao longo dos anos. Assisti à metamorfose da capital, de Bona para Berlim. Efetuada sem olhar a despesas, mas com enorme cuidado. A arquitetura política é funcional e confortável, mas despedida de qualquer espécie de arrogância nacionalista. Pelo contrário, os lados sombrios da história alemã estão patentes, exibindo uma capacidade autocrítica sem rival na Europa. A bandeira da União Europeia está desfraldada no Reichstag com a mesma dignidade do estandarte alemão. Hoje, o rosto da cidade revela sinais de confiança e de hospitalidade. Intensidade urbana, mas ao mesmo tempo calma. Todas as artérias abundam de áleas de tílias, carvalhos e castanheiros. Nos bairros residenciais respira-se o silêncio em pleno dia. Há sempre um café onde repousar. Há uma grandeza em Berlim, mas não se vislumbra opulência. Com uma sinistra ironia, o camião assassino veio de oeste, da Kantstrasse - a rua que celebra o filósofo da "paz perpétua" -, galgou o lancil e varreu quase uma centena de metros de passeio, onde estava instalado o mercado natalício, para estacar à beira da rua de Budapeste. Escassos segundos para tanto sofrimento. Foi um ataque à generosa hospitalidade alemã para com os refugiados, em 2015. Mas aquilo que o camião assassino quis esmagar, derramando o veneno do medo com fria premeditação, é a capacidade de os europeus transformarem 2017 no ano de reencontro com o seu futuro comum. Contra a inteligência da solidariedade, o terror quer empurrar-nos para o caos da discórdia.

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