Macron: jogos de alto risco

O comportamento do presidente Macron seria talvez a única variável interessante a seguir na recente crise motivada pelo alegado uso de armas químicas por parte do regime de Assad. Que Theresa May e Trump recorressem ao uso, embora moderado, do instrumento militar pareceria evidente para qualquer observador. A Grã-Bretanha tem estado ativa em todas as intervenções militares no Médio Oriente. Na invasão do Iraque, em 2003. No desmantelamento da Líbia de Kadhafi, em 2011. Trump, acossado internamente pelas suspeitas de apoio russo à sua campanha eleitoral, não perde uma ocasião para fazer má cara a Putin, mesmo que seja através e contra os seus aliados. Londres e Washington não perdem tempo a procurar justificação material convincente ou respaldo firme no direito internacional para as suas intervenções armadas. Nem apresentam desculpas pelo rasto de destruição e caos dos seus erros de cálculo.

A França é diferente. Há uma longa história de sinuosidade, que torna a ação militar externa de Paris um tema fascinante de seguir. A França é a única potência atómica que resta na UE, e sempre pautou a sua política de defesa, mesmo quando o seu interesse nacional era indisfarçável, também em nome de uma certa ideia de Europa. Entre 1950 e 1954, a França esteve à frente do projeto da Comunidade Europeia de Defesa, a criação de um gigantesco exército europeu, destinado a satisfazer os EUA e a colocar o rearmamento alemão sob controlo supranacional.

Os franceses convenceram toda a gente, menos o Parlamento de Paris, que abortou o projeto em 1954. Quando De Gaulle se afastou da NATO para criar a sua force de frappe atómica, também o fez em nome de uma Europa encurralada pelos dois gigantes da Guerra Fria. Foi também citando os valores da UE e do multilateralismo das Nações Unidas que Chirac liderou a "velha Europa" na recusa de aderir às ignóbeis mentiras fabricadas por Bush Jr. para justificar o desastroso derrube de Saddam. Macron aparece hoje como o homem com ideias frescas para renovar a Europa.

Mesmo antes de as acusações contra Sarkozy terem chegado a tribunal - mostrando que até numa democracia é possível um presidente usar o poder bélico do seu Estado para lavar em sangue alheio os seus crimes venais e pessoais - já Macron havia alertado contra o risco de semear Estados falhados, como ocorreu na Líbia em 2011. Poderia esperar-se, por tudo isso, que Macron pudesse querer envolver mais a UE neste caso, recorrendo à recolha independente de provas, usando também os bons serviços da ONU. Pelo contrário, o presidente gaulês reagiu com uma celeridade que parece mais justificada pela intenção de fazer boa figura na próxima visita a Washington do que por qualquer propósito de ajudar a criar uma política europeia comum face a uma das nossas mais perigosas fronteiras.

Parece-me que Macron cometeu um duplo erro. Primeiro, subavalia o risco de alastramento do conflito sírio. As punições ocidentais a um Assad vitorioso não vão impedir a derrota das oposições, mas podem encorajar um choque direto, de consequências imprevisíveis, entre as potências regionais envolvidas. Segundo, em caso de um erro de cálculo provocar baixas graves nas forças russas, ninguém poderá aquilatar a medida da retaliação de Putin. O milagre da URSS de Gorbachev não se vai repetir com a Rússia atual, e o arsenal nuclear global de destruição maciça permanece intacto. Lamentavelmente, também Macron parece ter esquecido as lições da Guerra Fria sobre a fragilidade perigosamente explosiva do sistema internacional.

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