Ler jornais é saber mais

Dar início a algo, como é o caso da colaboração nesta nova metamorfose do secular DN, exige distanciamento. Importa meditar sobre o propósito da escrita nos jornais, e como na nossa vida se cruzam fios de causalidade, aparentemente desconexos. Escrevi o meu primeiro texto para a imprensa num jornal católico de Setúbal, em novembro de 1973. Era estudante liceal, quase com 16 anos. O artigo intitulava-se "Ainda o Chile" e nele explicava o que me parecia estar em jogo no derrube de Salvador Allende, pelo golpe militar de Pinochet de 11 de setembro. O censor de Setúbal foi criticado pela censura de Lisboa por não ter reparado no alegado caráter "subversivo" do artigo, mas a pouca idade do autor criou um efémero anel de inimputabilidade. Em 1986, como representante da opinião pública no Conselho de Imprensa de boa memória, presidido pelo saudoso juiz Jorge Mendonça Torres, fui o coordenador de uma campanha nacional para valorizar junto dos cidadãos a indispensável missão da imprensa escrita. Depois de muito refletir, concebi o lema sob o qual percorremos todo o território nacional, em palestras e conferências: "Ler jornais é saber mais". Nesse mesmo ano, por ocasião do meu aniversário, recebi um presente que ainda contemplo da minha mesa de trabalho: a primeira página do DN -nessa altura dirigido por Augusto de Castro - de segunda-feira, dia 9 de dezembro de 1957. Cheia de títulos como era comum na época... Em 1991, defendi uma tese de doutoramento sobre o conceito de razão em Kant. Qual é o fio condutor que une todos estes episódios pessoais, resgatados dessa corrente de esquecimento a que chamamos tempo? A ideia comum de que a escrita em jornais se define pelo seu valor no alargamento da esfera de conhecimento partilhado. Para Kant, o governo que impedisse a liberdade de imprensa era um governo que proibia a própria liberdade de pensamento. Na solidão da sua cabeça ninguém se pode considerar nem livre nem esclarecido. O conhecimento implica comunicação, pensar com os outros (mitdenken). E a imprensa, seja no século XVIII ou no século XXI, deve ser essa imensa esfera de mentes que dialogam e se corrigem mutuamente. Sem o "saber mais" que os jornais permitem, não existem condições para o "saber melhor" do conhecimento depurado. Por isso, cada vez que escrevo para este jornal e para os seus leitores, sei bem a responsabilidade que constitui a ação de pensar o efémero. Na espuma dos dias manifesta-se à escala humana a própria reverberação da eternidade.

Professor universitário

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.