Europa com alma

Mais de metade dos gregos (55%) encaram a possibilidade de emigrar. Enquanto se aguarda por um desfecho que varia entre trágico e catastrófico, esta demissão existencial de um povo inteiro confirma que o "sonambulismo", para usar a expressão com que o historiador Christopher Clark caracterizou os acontecimentos que conduziram à hecatombe de 1914, parece estar outra vez a acometer a Europa. Na periferia sente--se o aumento da pobreza, mas em toda a UE a esperança foi substituída pelo medo do futuro.

Os versos proféticos de W.H. Auden, no verão de 1939, ressoam como atuais face às forças centrífugas que todos os dias crescem no nosso continente: "E as nações viventes esperam/ Todas sequestradas pelo seu ódio". De onde poderemos receber, então, o alento vital para a nossa luta pela Europa? Talvez do silencioso, e tantas vezes invisível, trabalho do espírito. Nos últimos meses assisti, na minha universidade (UL), à apresentação e vibrante defesa de dois extraordinários trabalhos doutorais sobre filosofia e cultura em Portugal por dois jovens investigadores estrangeiros. O alemão Dirk-Michael Hennrich elaborou uma tese em que Teixeira de Pascoaes e José Marinho convivem com Hölderlin e Heidegger.

O italiano Fabrizio Boscaglia, por seu turno, investigou a presença árabe-islâmica na obra múltipla de Fernando Pessoa, abrindo novas vias para a compreensão desse nosso pensador e poeta maior. Dois jovens intelectuais pensando no lugar e na língua do Outro. Dois testemunhos da grandeza de que os europeus são capazes, quando permanecem fiéis ao húmus do melhor da nossa inquieta alma comum. Sempre guiada pela busca de desafios que a transcendam.

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