Portugal no choque do futuro

Viriato Soromenho Marques

Entre a independência do Brasil, em 1822, e a fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1875 - que marcou o início da corrida febril e sistemática pelo império africano -, Portugal pensou-se como potência pós-imperial. Depois da Índia e do imenso Brasil, Portugal regressava à minguada e europeia "praia lusitana". A perda do Brasil não foi a de uma colónia, mas a de um reino irmão, desde 1815, ao qual devemos parte da nossa vitória na Guerra da Restauração (1640-1668), bem como a capital no Rio de Janeiro, que impediu o Corso de decapitar a dinastia de Bragança em 1807. Com o Brasil partiu também uma parte da nossa elite de pensamento e ação, de que é exemplo maior José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), uma das mais brilhantes e completas personalidades lusas de todos os tempos. Almeida Garrett, no seu Portugal na Balança da Europa (Londres, 1830), acentua bem essa nova solidão estratégica. Mouzinho da Silveira, em 1832, diz-nos que os portugueses fazem uma guerra civil por não terem percebido que três séculos de trabalho escravo acabaram. Agora é preciso criar valor pelo "trabalho próprio". Antero de Quental, na sua penetrante conferência do Casino de 1871, rejeita as "conquistas longínquas" como uma das causas da nossa decadência. Antecipando o Max Weber de 1905, Antero vai exaltar o exemplo da Europa protestante, culta, disciplinada e industriosa. O entusiasmo excessivo do micaelense com essa Europa, que lhe parecia pacífica, tinha sido antecipadamente corrigido por Andrade Corvo na obra Perigos (1870), na qual, numa antevisão genial, prevê que futuras guerras europeias obrigarão os EUA a intervir militarmente no Velho Continente. Os Açores serão a ponte entre o Novo e o Velho Mundo, selando uma futura aliança estratégica entre Washington e Lisboa. Do Ultimato (1890) à queda do Estado Novo (1974), Portugal regressa à mitologia imperial. Salazar foi o derradeiro e intempestivo representante desse republicanismo autoritário e colonialista, que já nos levara aos campos de batalha da Flandres em 1917.

Depois de 1974 não houve período de nojo. Entrámos, ainda em estado de torpor, pela estrada da integração europeia, como quem assina um seguro contra os seus próprios demónios e medos. Entre 1986 e 1992, provámos um néctar que nos deu alento. Europa significava consolidação democrática e impulso para a prosperidade material. Em 1992 assinámos o contrato de Maastricht, com uma euforia inimiga da reflexão, e sem ler as cláusulas de letra miudinha, que hoje são a verdadeira Constituição europeia. Demos um salto no escuro, mais na lógica da aposta do que do juízo esclarecido, sem reparar que no euro em vez de se harmonizar o controlo da inflação e das finanças públicas com a convergência económica e social, pura e simplesmente se imolava o segundo objetivo em favor da sacralização do primeiro. Dificilmente se encontrará hoje, mesmo após uma década traumática, um povo em que lealdade nacional e ânimo europeu coabitem tão bem como em Portugal. Contudo, temos de reconhecer que isso de pouco vale dentro do grande cruzador europeu, que está a meter água por todos os lados. O país decisivo para saber se a integração europeia culminará em união ou em pandemónio chama-se Alemanha. Infelizmente, desde a demissão de Bismarck (1890) que em Berlim competência política e poderio militar ou económico não são temporalmente coincidentes. Nos anos que se aproximam tudo estará em causa. Para sobreviver na aventura do futuro, Portugal precisará de ir muito para além das receitas e das alianças conhecidas.

Professor universitário