Paciência, ignorância e poder

Viriato Soromenho Marques

Carl Sagan (1934-1996) dedicou grande parte da sua atividade como autor e pedagogo alertando para o perigo fundamental da nossa civilização: a dependência de uma complexidade tecnocientífica que ninguém está em condições de perceber e gerir plenamente. A explosiva ligação entre ignorância e poder corre o risco de "nos rebentar na cara". Em política, a outra face da ignorância é a opacidade. Se olharmos para o que se passa hoje na eurozona, sobressai a aparência de normalidade de que os media nos dão conta, e que envolve a maioria esmagadora dos atores políticos (líderes partidários, deputados, governantes, magistrados, etc.). Neste lado destapado da política tudo parece transparente, incluindo os "casos" mais noturnos que ocupam a atenção pública. Mas o lado mais dramático da política na eurozona não aparece nas manchetes. O nosso futuro coletivo depende da capacidade de mudarmos as regras que foram consagradas em 1992, no Tratado de Maastricht, para a arquitetura funcional da união monetária. O debate, nessa altura, tinha uma clareza e elevação que depois se perdeu. Ao lermos hoje a polémica fundacional do euro, verificamos que a ideia de construir uma união monetária sem o apoio de uma verdadeira união política - que permitisse coordenação de políticas económicas e o suporte de um orçamento federal europeu - foi vista como um perigo, sobretudo pelos alemães. Helmut Kohl chegou a dizer numa sessão no Bundestag, em 6 de novembro de 1991: "A história recente, e não apenas a da Alemanha, ensina-nos que a ideia de que a união económica e monetária [UEM] poderia ser sustentável sem união política a longo prazo é absurda."

Hoje este absurdo, o de manter uma UEM sem união política, transformou-se na doutrina oficial dos governos de Berlim. Para este resultado consentiram todos os outros países, incluindo a França, que encontra hoje em Macron o primeiro presidente que não tem alergia à palavra "federalismo". Até Portugal não sai bem no filme do euro. Lembra-se o leitor de quem foi o primeiro-ministro que no Conselho Europeu de Madrid, em dezembro de 1995, santificou a perigosa ideia de que uma moeda comum pode preceder a união política? A frase, de claro acento evangélico, foi esta: "Tu és o euro, e sobre esta nova moeda nós edificaremos a nossa Europa"... O que ontem foram decisões da vontade política cristalizaram-se hoje em opaca tecnologia monetária e financeira... Com os governos paralisados pelo tratado orçamental, a discussão relevante ocorre nos corredores do BCE e do Eurogrupo. Talvez não mais de duas centenas de pessoas decidem sobre a vida futura de centenas de milhões, esgrimindo entre si mensagens encriptadas sobre estratégias futuras. No passado dia 4, em Malta, um Vítor Constâncio de saída do BCE apelou, com uma impressionante erudição técnica, a uma política orçamental e económica europeia, defendendo a criatividade de Draghi, numa implícita antecipação do perigo de um próximo BCE sob Weidmann, que regresse, incompetentemente, à ortodoxia do Bundesbank. No dia 18 de abril, convidado pela "sua" Universidade de Harvard a proferir uma conferência, Mário Centeno, sem conseguir sair do seu colete-de-forças institucional, apelou à "paciência", sugerindo que, sem alternativa à eurozona, a força das coisas acabará por mudar o que nela está caduco. Contudo, o esoterismo das elites enfraquece a lucidez e desencoraja a paciência. No limite, a ignorância dos poderosos amplifica-se na ainda mais poderosa ignorância dos povos. E são estes que fazem a história.