A França como sintoma

Os sindicatos franceses travam uma luta desesperada contra o governo socialista que pretende flexibilizar os despedimentos e baixar os salários em nome da vulgata neoliberal que domina hoje as políticas económicas. Julgo que a malaise francesa tem um complexo perfil próprio, mas é também sintoma de uma profunda doença europeia. O que está moribundo em França é o projeto de uma Europa que jurou proteger o trabalho contra os abusos do capitalismo global. Em 1989, ao iniciar o segundo mandato à frente da Comissão Europeia, Jacques Delors alertava para os limites de uma visão estritamente económica do projeto europeu: "Ninguém se apaixona por um grande mercado." Delors reclamava uma Europa dos direitos sociais, da sustentabilidade ambiental e da diversidade cultural. A Europa de Manuel Valls, pelo contrário, despreza os direitos laborais consagrados no Tratado de Funcionamento da UE, e trivializa a colocação de uma nação inteira, a grega, no laboratório social da austeridade extrema. Por outro lado, a França representa, com uma nudez quase pornográfica, a responsabilidade da corrente socialista no bloqueio dos instrumentos federais europeus (união política e orçamental), que poderiam ter impedido os trabalhadores europeus de se tornarem vítimas da globalização. Os mercados não governam. Pagam a quem governe por eles. Os profetas da desregulamentação e do financeirismo falavam em nome do socialismo. Blair, no Reino Unido. Schröder, na Alemanha. O caso de Hollande é apenas mais descarado. Foi eleito em 2012 com um programa contra o Tratado Orçamental, para trair completamente as suas promessas. Se a França for coerente com a sua turbulenta história, para o ano teremos um acerto de contas. Que terá impacto em toda a Europa.

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Leonídio Paulo Ferreira

Nuclear: quem tem, quem deixou de ter e quem quer

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.