De raspão

Por uma fina margem de 31 026 votos, os eleitores austríacos derrotaram Norbert Hofer, candidato presidencial do partido de extrema-direita fundado pelo célebre e malogrado Jörg Haider (FPÖ). A vitória de Alexander van der Bellen, um veterano do partido ecologista, aconteceu num cenário absolutamente excecional. Na primeira volta das presidenciais, o Partido Socialista da Áustria (SPÖ) e o Partido Popular da Áustria (ÖVP), que formam a atual coligação governamental, perderam os seus candidatos. Esses dois partidos, que dominam a política austríaca desde 1945, criaram um abismo que Hofer queria preencher. A vitória de A. van der Bellen não permitirá, contudo, muito tempo para celebrações. As eleições legislativas antecipadas, que seriam inevitáveis em caso da vitória de Hofer, parecem ter sido evitadas. O que não pode ser adiado é a resposta às razões de queixa do eleitorado. Tanto no tema dos refugiados como nas questões de política social e económica, o que está em causa é um profundo desapontamento dos eleitores com o projeto europeu. Para muitos cidadãos, a UE aparece cada vez mais associada a uma imagem negativa de risco e insegurança. A desproporção entre as competências crescentes das instituições europeias e a exiguidade dos seus meios e instrumentos traduz-se na estagnação económica, que atinge já até os países do Centro, bem como na generalização de um sentimento psicológico de ameaça, ligado à chegada desordenada e impreparada de dezenas de milhares de refugiados. Os governos de Viena, mas também de Berlim, Lisboa ou Atenas, têm de encontrar, celeremente, caminhos partilhados de reforma para salvar a UE dos seus próprios erros. De outro modo, os bárbaros acabarão por derrubar as defesas das debilitadas democracias europeias. A partir de dentro.

Professor universitário

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