Churchill tem razão

O recentíssimo estudo de opinião sobre o grau de satisfação dos portuguese com as instituições e o regime resultantes da Revolução do 25 de Abril parece evocar as conhecidas palavras proferidas por Winston Churchill na Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947: "A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história." O aparente paradoxo da frase do político britânico ajuda a explicar o esmagador, mas também aparente, descontentamento dos portugueses com o atual estado da democracia: em graus diversos de intensidade, a insatisfação atingiu 83% dos respondentes de todas as idades (contra 76%, num inquérito semelhante realizado em 2001). Onde está a razão para considerar como aparente este descontentamento? Em primeiro lugar, os inquiridos concordam de forma maioritariamente expressiva com a afirmação de que hoje o País é mais livre, mais democrático e com maior qualidade de vida, do que antes da Revolução. Mais ainda, quando interrogados sobre as grandes políticas públicas que são o corpo concreto do regime (Serviço Nacional de Saúde, aumento espetacular da escolaridade, salário e pensão mínimos, maior igualdade de género, etc.), a maioria volta a concordar com a relevância dessas conquistas. Os portugueses manifestam com o seu aparente descontentamento, no fundo, o seu anseio por mais e melhor democracia. Por isso censuram os tribunais pelo estado lamentável de uma justiça binária, onde os ricos já não lutam pela absolvição, mas pela prescrição. Ou protestam contra o facto de os partidos parecerem estar mais atentos aos interesses corporativos do que às necessidades dos cidadãos comuns. Há até uma nota autocrítica: mais de 85% dos cidadãos nunca participaram diretamente na vida política. É caso para dizer que a democracia é, também, o mais exigente de todos os regimes. Obriga a um exercício constante de cidadania, sob pena de degenerar numa plutocracia.

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