Aprender com Bismarck

Para quem entenda a dicotomia esquerda/direita, a partir da atmosfera minguada de oxigénio do dogmatismo ideológico, há coisas que permanecerão para sempre um mistério. Uma delas é o facto de ter sido o chanceler Otto von Bismarck (1815- -1898), dito conservador e reacionário, o estadista que transformou a Alemanha no primeiro país do mundo com o embrião de um verdadeiro Estado social. Em 1883, foi promulgada a lei dos seguros de saúde. Em 1884, a lei dos seguros de acidente de trabalho. Em 1889, a lei do seguro de velhice e invalidez. O princípio de financiamento do sistema revelar-se-ia, também, de alcance universal: a contribuição dos assalariados e do patronato. Para ficarmos com uma ideia clara do pioneirismo social do chanceler do "ferro e do sangue", basta verificarmos que, em 1948, o Governo trabalhista repetiu a cartilha alemã na fundação legal do Welfare State britânico.

O que é que distingue um peso pesado como Bismarck dos pesos plumas que hoje governam a Europa? Bismarck sabia que só podem existir um Estado e uma sociedade fortes com coesão social. Com a defesa da saúde, da educação, do emprego, e da qualidade de vida dos mais humildes, daqueles cujo único capital é a sua força de trabalho. Ao contrário, os liberais falhados que hoje mandam na Europa, tornados em profetas da austeridade perpétua, pretendem atingir a desértica utopia do mercado absoluto e ilimitado promovendo a atomização social, como se fosse uma ideia "moderna". Enfraquecendo os sindicatos e todos os corpos intermédios de legítima e plural representação de interesses. Não percebem a lição de Bismarck: que a política ou é a "salvação pública" (salus populi), ou é o caminho para a desordem.

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