A perna curta

O castelo de cartas em que se transformou a zona euro pode ruir por vários motivos. Tem-se falado muito da implosão política, caso a Frente Nacional chegue ao Eliseu, coroando a erosão generalizada dos partidos tradicionais, e o afastamento revoltado e suicidário dos eleitorados em relação à manutenção da escala europeia. Contudo, cada vez mais, o candidato para despedaçar o euro, e com isso a ordem europeia dos últimos 60 anos, parece ser o estado lastimoso da banca europeia. Pior do que a Itália, são as inquietantes notícias que nos chegam da Alemanha, com o Deutsche Bank a sofrer a segunda pneumonia nas bolsas neste ano. Um sinal da justiça poética que ocorre tantas vezes na história. O consenso político na Alemanha, desde 2009, transformou uma mentira factual em doutrina universal obrigatória. A chamada "crise das dívidas soberanas" esconde as causas atrás dos efeitos. Na verdade, o resgate de países como a Grécia, Irlanda, Portugal, Chipre, e da banca espanhola, teve como origem imediata o envolvimento da desregulada banca europeia (com a alemã e a francesa à cabeça) no pântano do subprime norte-americano. O despesismo dos Estados foi essencialmente causado pela tentativa desesperada de os governos salvarem os bancos com dívida pública imposta aos contribuintes. O despesismo foi um sintoma e não a raiz da doença. A política de austeridade tem sido montada a partir desta grosseira mentira. O Deutsche Bank é definido pelo FMI como a maior ameaça para o sistema financeiro global. Outros consideram-no o maior esquema Ponzi da história mundial. Se esta criatura monstruosa rebentar veremos a Alemanha a tropeçar na perna curta das suas próprias ficções. O problema é que, como ensina a história, a Alemanha nunca tropeçaria sozinha.

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