A Europa no espelho de Trump

O presidente Trump vê o mundo como o palco de uma competição infinita, onde o ganho de curto prazo é o que lhe importa. Trata-se de um negociador que sabe aplicar eficazmente uma combinação entre surpresa e brutalidade. Isso funcionou, claramente, na especulação imobiliária, na indústria do jogo, nos reality shows, e noutros nichos de mercado onde ele fez nome e ganhou celebridade. Mas tal não se pode repetir quando um estadista se comporta como um jogador perante os gigantescos desafios enfrentados por uma humanidade, politicamente fragmentada, mas completamente envolvida por redes materiais e simbólicas de interdependência. A recusa de compromisso da presidência Trump perante a ameaça ambiental e climática é uma metonímia dos perigos e limites da sua política em geral. A maior potência mundial, em vez de contribuir para a cooperação obrigatória entre as nações perante perigos atuais ou iminentes, mais parece empenhada na implosão do que sobra do sistema internacional.

Contudo, alguma coisa está errada quando as mesmas vozes que acusaram Trump por fomentar os tambores de guerra na Península Coreana o zurzem agora por ter sido brando com o ditador de Pyongyang, em Singapura. Estamos a assistir, sobretudo na Europa, à formação de um consenso negativo que pode obnubilar os que dele participam. Instala-se a ilusão de que a transformação de Trump num saco de boxe irá servir de trampolim para reforçar a unidade europeia. Isso não só é ingénuo, como acaba por ofender a inteligência pública ao sugerir que a Europa poderia substituir a sua ausência de objetivo estratégico pelo cultivo de uma hostilidade comum. O facto de as propostas de Trump serem erradas e perigosas não significa, por outro lado, que as instituições e os regimes que ele vitupera estejam acima da crítica a ponto de serem intocáveis. Será que a NATO merece ser santificada? Já esquecemos o modo como esta organização, na sua deriva para se perpetuar, deu cobertura, entre março e outubro de 2011, à destruição do Estado líbio e ao sofrimento de milhões de inocentes - muitos deles futuros refugiados - resultante da guerra aérea iniciada por Sarkozy e Cameron? Será que o comércio internacional, com o seu desprezo pelos direitos humanos e pela preservação ambiental, não precisaria de ser radicalmente reestruturado? As tarifas de Trump ao aço e ao alumínio europeus não parecem muito inteligentes. Contudo, é pena que Berlim não se comporte cá dentro com a lisura contratual que exige a Trump: tem ignorado desde 2013 todos os alertas da Comissão Europeia contra a violação da legislação europeia (fundada nos artigos 121 e 136 do TFUE) relativa ao risco que o enorme superavit da sua conta-corrente representa para o equilíbrio macroeconómico de toda a zona euro.

O lema presidencial dos EUA, America First, rima com desumanidade, como se vê na questão da imigração. Contudo, poucos líderes na UE terão legitimidade moral para desfraldar a bandeira dos "valores europeus" sem serem desmentidos pelos factos. Na Europa, além do muro do Mediterrâneo, expondo os nossos "mexicanos" ao naufrágio, temos o irreformável muro interno do euro, que coloca a chantagem no lugar da esperança. Se a União Europeia quiser resistir a Trump deve realmente ser melhor do que ele, abolindo a injusta e explosiva "balança da Europa", hierarquizada, com diretório e periferia, em que se deixou atolar. Se preferir permanecer no narcisismo moralista, então, no espelho desmesurado de Trump espreitará uma feia caricatura: o reflexo da nossa própria hipocrisia.

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