À deriva

"Nada" (rien), terá sido o comentário escrito no seu diário, por Luís XVI, no final do dia 14 de Julho de 1789. Essa enorme desatenção tem sido usada, frequentemente, como exemplo para a falta de visão política. Com efeito, a grandeza política mede-se pela distância entre os problemas que começam a surgir no horizonte, e a (in)capacidade de os responsáveis políticos os perceberem. Ao não se entenderem os sinais da ameaça na fase larvar, esta cresce. Ao não serem tomadas as medidas adequadas para matar o perigo, quando este ainda está no ovo, este avoluma-se até se tornar invencível. Os últimos dezoito meses da vida europeia são um exemplo, amplificado, dos erros de análise e das falhas de vontade que constituem a essência da falta de liderança política. A arrogância dos governos de grandes países, com a cumplicidade assustada dos pequenos, permitiram que a crise das finanças públicas gregas se transformasse num abismo que ameaça devorar o próprio projecto de uma Europa unida e pacífica. Na recente reunião dos bancos centrais, em Jackson Hole, Christine Lagarde, directora do FMI, fez uma lúcida intervenção, alertando a Europa para as tarefas de recapitalizar os seus bancos, relançar o emprego, e criar uma visão de futuro comum, com uma política fiscal coerente. "Não temos o luxo do tempo", acrescentou para sublinhar a urgência. O que fazem os líderes europeus? Competem para saber quem diz pior das eurobonds, acreditam, ingenuamente, que colocar tectos constitucionais resolve o problema da indisciplina nas finanças públicas, e imitam-se com pueris impostos sobre os ricos, enquanto os paraísos fiscais continuam impunes. Se a União Europeia sobreviver, não será por causa destes líderes políticos, mas apesar deles...

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