Um festival

Quero lá saber da política! Já fui duas vezes à Gulbenkian ver a exposição que lá está desde quinta-feira passada, sobre a natureza-morta europeia dos séculos XVI e XVII. É uma mostra excepcional do género a que, dentro de um ano, se seguirá outra, sobre a natureza-morta dos séculos XIX e XX.

Os 71 quadros apresentados oscilam entre a engenhosa fabricação, demonstrativa das capacidades e da agilidade do artista, e a afirmação de um estatuto social de riqueza e sumptuosidade ligado a quem os adquiria. Tenho para mim que tudo o que na natureza-morta respeita ao virtuosismo mimético é muito mais impressivo do que o enquadramento sociocultural das peças, embora a natureza-morta possa ser um retrato do seu possuidor e do grupo em que ele se inscreve. Em certos casos transparece mesmo uma solenidade aparatosa, como se um clima de afirmação da grande burguesia interviesse a marcar enfaticamente a atmosfera, o tratamento das formas e até a dimensão do quadro (p. ex., Pavão e troféus de caça, de Jan Weenix). São talvez os menos interessantes no plano artístico, maugrado o grande efeito e a sua importância para a história e a sociologia da Cultura.

O que verdadeiramente me fascina são as formas, os reflexos, a luz a resvalar caprichosamente por superfícies irregulares de conchas nacaradas (como em Abraham Susenier) ou a atravessar cristais transparentes (como em Sébastien Stoskopff), o trabalho cuidado das tonalidades, a poética das gradações de sombras e luminescências, os pormenores nunca deixados ao acaso, tudo calibrado como encenação de subtilezas, montagem organizada nos seus ínfimos pormenores de efeito plástico e alegórico, preparada para pôr à prova a mestria do artista na restituição de recortes, texturas e volumes, e a sua destreza dos inúmeros jogos conceptuais e vaivéns das coisas e da luz. Muito daquilo que é intrínseco à própria ideia de natureza-morta obedece a um princípio de tema e variações em que surpresa, repetição, imitação, lugar-comum e excelência técnica se reenviam e combinam nas proporções ideais.

Alguns dos mais belos exercícios de cor, desenho e representação estão nesta volúpia reiterada de uma extrema fidelidade ao real, desmultiplicando-se em atmosferas e morfologias de efeitos sensoriais, abrindo-se na afirmação de uma opulência por vezes estridente e planturosa ou recatando-se, de um modo mais intimista e personalizado (Jan Janz, Chardin, Roland de la Porte) por via de uma musicalidade cromática de extrema delicadeza de nuances e oposições, jogando assim com a inteligência e a sensibi- lidade requintadas do espectador.

A presença do tempo devorador do mundo, do tempus edax rerum, insinua- -se também, embora não tenham sido incluídas nesta exposição algumas peças mais caracteristicamente ascéticas e angustiadas (mas atente-se em Pieter Claesz), sobretudo bodegones do século XVII espanhol, documentando uma outra vertente da natureza- -morta da época, propiciadora de austeras meditações sobre as vanitates, o efémero da existência humana e, no plano da "pintura pura", de exercícios de rigor e despojamento levados ao limite.

De um modo geral, e embora o lado "perecível" de flores e outros vegetais esteja presente no próprio instantâneo de pujança em que eles nos são apresentados, deu--se a preferência à natureza-morta enquanto profusão muitas vezes barroca e quase sempre brilhante, apelativa de uma hedonista alacridade dos sentidos. Lembrando o Pe. Isidoro Barreira e o seu Tratado das significaçoens das Plantas, Flores e Frutos que se referem na Sagrada Escritura (1622), também aqui seria interessante explorar a simbólica de vários casos, ibéricos e não só, no sentido em que Sónia Talhé Azambuja acaba de o fazer num belo livro, A linguagem simbólica da natureza / a flora e a fauna na pintura seiscentista portuguesa.

Mas há também um Rembrandt, aliás não muito interessante, umas lebres de Goya que o catálogo, em tudo excelente, aproxima com razão de certos Desastres da Guerra, e um Baschenis que me recorda algumas metáforas musicais de Cruz Filipe. E há extraordinários frutos e flores, copos e garrafas, salvas e talheres, objectos de porcelana, de barro, de vidro ou de metal, tecidos e pássaros, coelhos, lebres e peixes, flores magníficas… Esta exposição é um festival de texturas e tactilidades!

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