Retrato do artista quando adulto

Creio ser esta a primeira vez que escrevo inteiramente em causa própria nesta coluna, do que peço desde já desculpa aos meus leitores, sobretudo aos que vão ver nisso um acto de vaidade e não um exercício de análise em que há uma dimensão subjectiva e outra objectiva em especial entrosamento. Mas acontece que o meu amigo Júlio Pomar, o grande Júlio Pomar, juntando virtuosismo, arte, amizade, rasgada generosidade e empenhamento "acelerado", pintou o meu retrato a tempo de ele ser apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian numa iniciativa que ocorreu há dias e foi muito lisonjeira para mim.

Não se trata do "retrato do artista quando jovem" (hélas!, onde vai a juventude...), mas de uma imagem que me recorda uma observação de António Ferro, a propósito do retrato a lápis que dele fez Mário Eloy. Dizia António Ferro que esse desenho o ajudava a conhecer-se melhor. Nos seus cinzentos e nas suas velaturas, no modelado da face acentuado aqui e ali por uma espécie de chiaroscuro, este quadro de Pomar põe-me precisamente a questão de como pode ajudar-me a conhecer-me melhor, agora, numa época mais tardia da vida, em que flashbacks e retrospectivas autobiográficas são muito mais frequentes e vindos do íntimo da idade madura, encontrando-se mais do que ultrapassada a rimbaldiana oisive jeunesse.

É um óleo em cuja gama de cinzentos e castanhos de que ressaltam um colorido e uma aura de luminosidade inesperados, num efeito quase tridimensional, posso rever-me em uma série de décadas da minha vida adulta ao contemplá-lo e também localizar com maior ou menor nitidez nesses períodos vários estados de alma, meditações, tomadas de decisão, ironias, prazeres e desprazeres, venturas e amarguras, tempos fortes e tempos fracos. Há muitos anos, no meu poema Um Cão para Pompeia, havia uma "Chloé, flava e enervada", que me disparava à queima-roupa "você é um cerebral". Não serei tão cerebral como essa personagem poética dizia, mas acho que sou o bastante para justificar o epíteto e que Júlio Pomar captou muito bem essa dimensão de cerebralidade que há mais quem me aponte...

Por mais de uma vez tive ocasião de escrever sobre a pintura de Pomar, com a sensação de que há sempre nela qualquer coisa de irredutível a outros meios de expressão. É esse o mistério da arte. Tudo o que consigo dizer é que a compenetração com que Júlio Pomar trabalhou na interpretação que propôs neste seu retrato baseou-se certamente em longo conhecimento e amizade recíprocos, numa convivialidade entre pintor e modelo que leva a essas intuições. Não sendo o modelo propriamente um Adónis no caso presente, foi por toques subtis e rápidos de aproximação a uma fisionomia vulgar que se tornou possível captá-la num conjunto muito versátil de possibilidades em que posso ver-me a reflectir, ou a preparar-me para fazer qualquer outra coisa, contemplar uma obra de arte, escrever um texto, tomar uma atitude ou fazer um gesto sem recuo, enfim avançar para um espaço que subitamente iria tornar-se meu no tempo próprio.

Mas o retrato não dá apenas esse lado pessoal de mim, como ser ondoyant et divers, para citar Montaigne, cuja ondulância e diversidade fossem assim registadas num traço de desenho e em camadas de pintura em que tudo vibra discretamente. O retrato também foi em si ondulante e diverso, objecto de uma primeira versão mais "difusa" e de uma segunda versão, a definitiva, mais nítida, mais directa, em que o desenho ganha uma poderosa força criativa e o olhar uma percuciência, como se estivesse a contemplar-nos sacando-nos a uma melancolia do mundo, que também anda dentro de nós e vem de par com a referida cerebralidade.

Panofsky cita do teórico barroco italiano Lomazzo uma etimologia fantasista para a palavra disegno. Decomposta, ela corresponderia a "segno di Dio in noi". Não é preciso ser crente para ver no artista dotes demiúrgicos que aproximam os seus poderes de figurar o mundo dos poderes da divindade. E por isso, pondo ao contrário um célebre verso de Camões, acho que posso dizer: "Retrato, vós sois bem meu"...

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