Livros e supermercados

Em termos de marketing, a acção da Jerónimo Martins foi espectacular, mas o que se viu na televisão não era menos deprimente por causa disso. Na rápida e tumultuária sucessão dessas imagens, ficava-se com a impressão de que as turbas acarretavam, à cabeça, em carrinhos, em caixas, em contentores improvisados, em cestos, sacos e saquetas, ou fosse lá como fosse, muitos artigos que não eram de primeira necessidade, isto é, dir-se-ia que o fortíssimo desconto de 50% terá induzido opções de compra precipitadas e fora de qualquer planificação doméstica, acabando portanto por desequilibrar orçamentos que já não brilhariam pela abundância.

Uma vez que as massas são ingratas por definição, apesar de o golpe promocional ter tido uma tão forte dimensão de sensacionalismo, não se sabe se terá contribuído para fidelizar fregueses ou para, no futuro, aumentar o volume de vendas da empresa. Mas é provável que tenha induzido na concorrência veleidades de actuação de sinal semelhante, a que um dia destes havemos de assistir. (Aqui há tempos em Lisboa, creio que sem descontos mas também com grande espectacularidade, houve uma invasão de produtos hortícolas na Avenida da Liberdade).

Não parece que as ilegalidades eventualmente cometidas sejam de grande gravidade. Mesmo que casuisticamente elas possam ocorrer quanto a este ou aquele produto, há tantas componentes envolvidas na operação que as médias praticadas vão acabar por diluí-las.

O importante, como já foi referido por vários sectores, é que tudo isto deve levar a uma reflexão séria. Convém repensar o desfasamento entre a remuneração do produtor (sobretudo do produtor agrícola) no ponto inicial da cadeia de fornecimento e os ganhos empresariais no outro extremo; ponderar a necessidade de reequilíbrio justo entre o escoamento da produção nacional com as suas crónicas dificuldades e a opção de compra de produções estrangeiras em grandes quantidades que fazem baixar imbativelmente os preços por que elas são adquiridas pelas grandes superfícies; analisar o quadro de condições negociadas ou impostas pelas entidades adquirentes a quem lhes alimenta os stocks. Isto por vezes tem reflexos imediatos em prejuízo do consumidor: para dar um exemplo comezinho, toda a gente fez já a experiência dos pacotes de saladas opados pela fermentação dos legumes dentro da embalagem, por nela passarem tempo demais...

Não se pense todavia que esta situação se limita ao mundo rural. Basta pensar, mutatis mutandis, no que se passa com os seus reflexos no mercado livreiro (e não me refiro, como é evidente, à excelente colecção que é publicada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos).

A venda nas grandes superfícies esmagou por completo a remuneração do editor do mesmo passo que o tornava cada vez mais dependente desse sistema e das suas condições leoninas, condicionou a maior parte dos catálogos em nome de uma sobrevivência, mesmo que precária, das empresas do sector, obrigou muitas vezes à marginalização e até ao esquecimento das obras de cultura, agravou em muito os problemas do sector livreiro. Não foi o chamado «preço fixo» que resolveu essas questões. O preço fixo, de resto, foi logo sabotado à partida por muitos daqueles que o advogavam encarniçadamente, mas colocavam os livros nos supermercados fora do cumprimento das regras respectivas. Regia para os descontos na venda ao público, mas não os impedia em grande margem no fornecimento dos livros para revenda. E entretanto a situação agravou-se e de que maneira.

As cadeias de supermercados são hoje o maior conjunto de redes de distribuição de livros em Portugal. Os títulos propostos aos clientes, a importância dada aos best-sellers em detrimento de outros tipos de obras, as técnicas e lugares promoção, o preço das vantagens de exposição negociadas ao milímetro, o tempo de rotação dos livros, a devolução dos não vendidos, não envolvem factores que são culturalmente menos positivos apenas no plano dos próprios supermercados e de quem os frequenta. Propagam-se também às livrarias e condicionam gravemente o contacto do público com o mundo da edição no seu desejável pluralismo cultural.

Supondo que até os stocks de livros do Pingo Doce tenham ficado esgotados no passado dia 1, é claro que se pode perguntar o que é que os editores vão receber por conta disso. Mas, no plano do livro, a questão é muito mais geral e também vale a pena pensar nela.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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