Seis meses soletrados

Nasceu fraco, com prognóstico reservado, elevada probabilidade de morte prematura. Foi súbita, mas a morte da oposição: Portas irrevogou-se e Passos perdidos. O governo de esquerda surpreendeu muito mais por aquilo que aguentou do que pelo que governou. Na sopa de letras de Costa, salta o G de geringonça. É a palavra do ano. Num ano em que, na primeira metade, foi bom para eles. Mas será na segunda que veremos o que os seis meses já passados significarão para todos nós.

Austeridade - não desapareceu. Está disfarçada e dificilmente erradicada. Porque o crescimento económico está frustrante. Porque o alívio esperado nas contas públicas assim não acontece. Porque Bruxelas não vai perdoar. Porque as contas não se pagam com fé e palavras. Costa desafiou muitas leis da física, fez ilusionismo na política, mas não conseguiu driblar a aritmética. Ainda...

Banca - não é só Banif, embora a resolução tenha implicado 3 mil milhões. Não é só a CGD, necessidade de capital colossal. Não é só o Novo Banco, um bebe que lhe meteram no colo e implicará perdas ao Fundo de Resolução. Contas em "bi", porque a banca não faz por menos. Costa quer um banco maus e os banqueiros (fingem que) não. Não é um problema que foi por estes criado, mas é o maior risco sistémico à economia que este Governo prometeu fazer crescer.

Crescimento - o grande desafio que se coloca ao Governo de António Costa. Porque tudo assenta num PIB que não chega para pagar as contas. É justo reconhecer que muito não tem a ver com as opções deste Governo. A tragédia do Brasil. A catástrofe da Venezuela. O resgate de Angola pelo FMI. O regresso de Moçambique à instabilidade. E a própria China, que deixou de carburar. Griparam subitamente os motores que, há uma década, contrariavam a nossa dependência excessiva face a Europa.

Escolas - ministro furacão, desfez em semanas um Crato de quatro anos. É o independente mais polémico, também o mais ousado, que António Costa recrutou. Foi também o mais atacado: até Passos Coelho se fez notar, quando lançou insinuações irresponsáveis sobre supostos "interesses" que condicionavam Tiago Brandão Rodrigues na política educativa. Como se não bastasse, os contratos de associação tornaram-se, também inesperadamente, um palco de confronto político que abalou a lua-de-mel entre Governo e Presidente.

Feriados - os que nos devolveram. Agradecemos agora, pagamos depois.

Geringonça - a palavra do ano, inventada por Vasco Pulido Valente, perpetuada por Paulo Portas num debate parlamentar. A geringonça funciona, mas não voa. Surpreendentemente, a solução que nasceu contranatura tornou-se natural e foi vencendo obstáculos: o orçamento de Estado, o Plano Nacional de Reformas...

Horas - as trinta e cinco, golpe à produtividade, sinal errado para quem precisa desesperadamente recuperar a confiança dos investidores.

Investimento - porque sem ele, será colapso certo. Mais preocupante do que o apagão da oposição política interna é esta sensação de que o investimento externo em pipeline praticamente secou. Aqui, nada pode ser assacado à conjuntura externa. Um governo de esquerda assusta muita gente, mas as medidas populistas afastam muito mais. Paga caro um país que reverte privatizações, concessões, muda as regras e atinge Wall Street no coração.

Ministros - como é normal, há-os discretos e os ausentes, há os competentes e desastrosos, há os pirosos e os pirómanos, há políticos e tecnocratas, experientes e independentes. Nestes seis meses, há porém uma sensação nova e estranha. Tirando Centeno, que não se pode esconder, é um Governo que parece não ter ministros. Há um Parlamento. Há um Presidente. Há o tripé da geringonça. E há o rebelde Tiago. O resto é paisagem.

Negociador - não sabemos a obra que Costa deixará para a História, mas há algo que o inscreve na história de todos os primeiros-ministros: sobreviveu a todas formas possíveis de morte. É inigualável a sua capacidade de sair do beco.

Oposição - matou Portas e anestesiou Passos. A maior obra de António Costa é o cemitério gigantesco em que se transformou toda a sua oposição política do centro-direita.

Plano B - o outro nome de um aumento de impostos, que cada vez mais se afigura inevitável. O IVA, é provável, será o bombeiro do costume. Poderá ser através de reescalonamento de produtos. Poderá ser com novo agravamento de uma das taxas: a mínima, a normal. Normal é tudo aquilo que não acontece na política fiscal portuguesa. O massacre voltará a agravar-se dentro de momentos.

Reverter - foi dos primeiros textos que aqui escrevi, nas primeiras semanas deste novo ciclo político, marcadas por simpatia e reversão de coisas impopulares, muitas delas necessárias. Governo fofinho - como o caracterizei. Além de fofinho, ganhou entretanto barriga: para ir empurrando o que é difícil para a frente.

Sindicatos - não é exatamente o povo quem mais ordena, mas os poderes sindicais foram claramente reforçados, o que aliás garantiu o apoio do PCP ao Governo socialista. Seria evolução civilizacional, não fosse o regresso de uma certa apropriação do interesse geral por corporativismos profissionais.

TAP - a metáfora de Costa e do seu Governo: finge que tudo muda, para no essencial ficar na mesma. Manda quem pode, mas no fim acaba por ceder a quem pode pagar. A TAP era um assunto resolvido pela direita. Passou a ser um embaraço da esquerda. Na troca de passos, ficou um problema de reputação nacional que ainda está por saldar.

União Europeia - também rima com verborreia, que significa eloquência estéril, mas no essencial se resume a uma palavra só: vergonhoso. Este projeto político já foi consagrado com um Prémio Nobel da Paz. Hoje está reduzido a um projeto sem política. Nem projeto é. É uma vergonha que nos entristece e que a crise dos refugiados deixou terrivelmente exposta. No défice orçamental ameaçam-nos. Na crise humanitária, Portugal responde por cima. Aqui somos Merkel, não há dinheiro mas temos moral.

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