Pode alguém ser quem não é?

1. Hoje estava com vontade de demonstrar que o brexit não é o fenómeno que explica a saída direta de uma ministra das Finanças para uma empresa britânica de gestão de créditos bancários. Brexit não é uma saída limpa, mas os créditos são tóxicos. Não o faço porque, na verdade, a ministra não sai. Acumula.

Passou à condição de "ex" no executivo, mas por cá ficou. E agora é representante plena do povo. No Legislativo. Uma questão de poderes. E de moral. Não a de Maria Luís, mas da decisão que tomou. Altamente duvidosa, diga-se. Não a moral, mas a decisão em si mesma - como a do próprio povo que, ainda não há meia dúzia de meses, a elegeu deputada à Assembleia da República.

Na República, os tribunais descambam para as redes sociais, os julgamentos ficam sumários e os assassínios de carácter são permanentes. Por isso resisti à tentação de escrever sobre Raposo, os suicídios no Alentejo e o mesmo veneno que o próprio provou - ou não fosse ele também um guardião moral da nação, tão definitivas são as suas sentenças éticas a terceiros.

Estava para aqui virado, para esta pátria alegre, que volta a ter um Presidente bem-disposto, e pensei num outro bom tema para esta crónica - 20 anos depois, a Belém regressa um homem informal, desconcertante, próximo das gentes normais. E poderia ser mais um daqueles textos em que assumo que gosto, porque gosto de Marcelo, e provavelmente lá teria de me explicar.

Portugal não lida bem com gostos, prefere desgostos. Criticar, questionar ou denunciar - é independência e frontalidade. Elogiar ou simplesmente manifestar uma simpatia - é uma suspeição. Gostar é duvidoso, fica com o ónus de provar. Quem odeia é corajoso. "Gosto de Marcelo" seria, portanto, o título mais sugestivo e controverso de uma prosa muito atual. Amanhã será ele o XX.

Já aliás aqui escrevi, durante esta campanha eleitoral, que o critiquei pelo vazio de ideias e pelo "não me comprometo", sobre os laços de cumplicidade, ternura até, que fomos criando nos tempos em que este benzoca de Cascais comentava na televisão em que trabalho. Suficiente para os falsos puristas da nação verem ali uma "confissão". E as conclusões, tão habituais quanto precipitadas, sobre a independência da informação.

2. Podia ser o exit de Maria Luís. Podia ser o êxito de Marcelo Rebelo de Sousa. Podia ser a República. Podia ser o Alentejo. O suicídio de Raposo, os homicidas cibernéticos. Podíamos ser nós. Neste canto lusitano, que até tem um "cante alentejano", que não é virtual, é imaterial, património da humanidade. Com Marcelo a crédito e Albuquerque a débito, no deve e haver destes dias, é de Viriato que apetece falar.

Homem da casa, cronista com coluna, a direção do DN que me perdoe porque da concorrência tenho de falar: "só um milagre poderá salvar a Europa", chamada à capa do jornal i desta segunda-feira, três páginas completas, um tipo íntegro e pensamento por inteiro.

Viriato Soromenho-Marques dá uma entrevista notável, dizendo coisas absolutamente devastadoras, mas nada sensacionalistas. Pelo contrário, francamente sóbrias, por isso assustadoras. E más de mais para Maria Luís ou até Marcelo serem verdade. Uma entrevista que vale um Presidente e reduz o dilema moral de uma ex-ministra à sua expressão mais ridícula.

É do brexit propriamente dito que se trata - mas não tratamos. A saída da Grã-Bretanha da União Europeia é uma ameaça credível, mas não a pior. A pior continua a ser a crise dos refugiados.

A crise tinha solução, a Europa está-se a ver que não. Europa barricada, viu erguerem-se 250 quilómetros de muros e cercas entre a Hungria e a Sérvia, nas fronteiras da Grécia e da Bulgária com a Turquia, entre a Áustria e a Eslovénia. Oito países já suspenderam o Acordo de Schengen e a livre circulação de pessoas - Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Eslovénia, Hungria, Noruega e Suécia.

O acordo tem 30 anos e Schengen jaz jovem adulto. Reerguer fronteiras não é só uma maçada turística - custará 470 mil milhões às empresas na próxima década, não se sabe se menos, se mais, mas é evidente que alguma prosperidade se sacrificará. Sem liberdade de circulação de pessoas e bens, o que sustém o euro? Laisser passez, sobram os capitais. Por isso a Europa é monetária, viva a união bancária!

Créditos podres, trabalho certo, Maria Luís tem muito com que se ocupar. brexit, grexit, derivados, CoCos, tóxicos, sistema bancário desconcertado. Não é fatalismo, é realmente dramático. Le Pen para ajudar. E um slogan, "nem mais um muçulmano na Eslováquia", que ganha eleições nacionais e abriu as portas de um Parlamento para os neonazis entrarem.

Viriato, que é otimista, diz que o brexit não vai acontecer. In extremis, o medo de sair da Europa vai vencer. O medo está sempre a vencer por toda a Europa. Problema dos britânicos, que nunca foram europeus. Problema nosso, que não sabemos muito bem em que nos vamos tornar.

Cameron, um boneco de porcelana numa loja de elefantes, diz que a Europa é uma ameaça para o Reino Unido - e, por isso, apela ao voto no sim!!!? Mais coerente é Soromenho: a Europa é uma ameaça para o mundo, provavelmente a maior de todas. Com os seus políticos rasteiros, com os seus bancos escarafunchados, com os seus povos entrincheirados. Põe-te em guarda!...

Brexit não é uma canção, mas uma de duas fatalidades. Pode alguém ser quem não é? Ou serão os britânicos os primeiros a abandonar o que já não existe?

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.