Os papéis do senhor Fonseca

1 Há momentos em que não devemos ceder ao falso pudor. Há casos em que o gesto de puxar os galões é muito mais do que um exercício de egocentrismo. E há coisas que têm de ser chamadas pelos nomes. O mundo está confrontado com a maior investigação de jornalistas à escala global e dois deles são nossos: Rui Araújo e Micael Pereira. Um da TVI, outro do jornal Expresso.

Nem de perto nem de longe são, o Rui e o Micael, donos desta informação toda. Nem podiam. Impossível apropriarem-se dos 11 milhões de documentos, dos terabytes de informação armazenada em computadores, enfim, do escândalo que abana governos, abala opiniões públicas e deveria fazer corar de vergonha muitos sistemas de justiça.

Sim, é um orgulho saber que há portugueses nesta hecatombe mundial e que não estão todos na lista dos suspeitos. Os jornalistas da TVI e do Expresso estão no lado bom da história, fazem parte de um grupo com mais de trezentos repórteres do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI), que receberam a informação originalmente entregue a um jornal alemão, que a trabalham em rede, que também entregam, portanto, aos outros a parte que eles próprios investigaram, os factos que ainda estão a apurar.

Sim, há outros portugueses que pertencem a este enredo, que são parte de uma teia de transações que movimentaram milhões de milhões de dólares de presidentes, primeiros-ministros, reis, desportistas e estrelas de cinema. Mas também homens de negócios, agentes do crime, traficantes conhecidos, políticos anónimos - provavelmente a maior fuga de capitais provada, afinal a maior prova daquilo que já todos cinicamente sabiam.

A investigação começou há cerca de um ano. Só a TVI e o Expresso, como digo, têm em Portugal acesso aos documentos. Acederam e acrescentaram. Mais dados. Mais personagens. Uma, duas, dez, dezenas, quem sabe? A procissão ainda vai no adro, promete Araújo. Papéis do Panamá é o nome de código de uma revelação que começou neste domingo às 19.00, mas não se sabe onde, quando e como termina.

Jornalistas de gerações diferentes, com uma causa comum: um mundo mais justo. É a mais nobre causa do jornalismo, uma missão sem missionários, a utopia de gente imperfeita, carregada de defeitos, quase sempre insatisfeita, mas que se reencontra nestes momentos, no confronto com o poder que tem e na capacidade de o usar em benefício do bem comum.

Os Papéis do Panamá são os primeiros que, a uma larguíssima escala, nos revelam uma parte pestilenta da globalização que tresanda numa figura sem pátria nem tradução: offshore. É uma firma que presta estes serviços, a Mossack Fonseca, que viu todas as transações que intermediou desde 1977 e 2015 serem desvendadas, interligadas, comprovadas, conhecidas. É apenas uma, a quarta maior do mundo, mas uma apenas, das sociedades que interagem com gente de ar muito apresentável - que não é a mesma coisa que respeitável.

Advogados, banqueiros, empresários, ministros, são eles os 11 milhões de papéis do senhor Fonseca. São os papéis que estão agora nas mãos do Rui, do Micael, de mais três centenas de camaradas de ofício e de centenas e centenas de milhões de simples cidadãos do mundo, que ligam uma televisão, abrem um jornal e têm razões para pensar: são todos iguais. O Rui, o Micael e as outras centenas de jornalistas do Consórcio provam exatamente o contrário. Não somos todos iguais. Somos todos imperfeitos, mas a indecência não é uma praga nem inevitável nem incontrolável.

2 Para a lista ficar completa, faltam ainda dezenas de artigos de jornal e reportagens de televisão, faltam nomes e entidades, empresas e partidos. Gente que movimenta biliões mas que os certifica com a legalidade da situação. As offshores não são evidentemente ilegais. São uma vergonha, porque são imorais. É nestes dias que a conversa não pode acabar na ética da lei. Também não sei como é possível sair deste impasse, porque não pode valer a ética de cada um.

E há situações, como esta que está em causa, em que escamotear com a "legalidade" das operações é mais do que insultar todos os governos do mundo, mesmo aqueles que não aparecem, aqueles que não são salpicados ou remotamente referenciados. Lembrar que os Panama Papers são o fruto de um consentimento da União Europeia, dos Estados Unidos, do FMI, do Banco Mundial, de Bretton Woods inteiro, de Frankfurt e de Washington é a única forma de fazer toda esta gente corar de vergonha e atacar de uma vez o problema.

Comecei no jornalismo económico ainda na década de 1980 e já se filosofava sobre as offshores, as fugas ao fisco, o cinismo do sigilo bancário, a necessidade de o mundo agir em concertação. Discussões em Davos, pátria do segredo. Planos inscritos na agenda do G7, que se tornou G8 e, sabe-se agora, fórum inapropriado para tratar do assunto. Por conflito de interesses.

Sabemos agora, depois de revelados os primeiros nomes, de Putin ao pai de David Cameron, porque o assunto saiu da agenda do G8. Se em pastas douradas distribuírem os papéis do Panamá aos "líderes do mundo", a agenda oficial do capitalismo passa a ter em anexo os extratos bancários de alguns deles.

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