Liberdade condicionada

1 Liberdade. O dia dela. A celebração incondicional. Memórias de quem se emociona porque sabe o que é sem ela viver. Perplexidades de quem nela já nasceu e não pode por isso entender. Um peixe não sabe se a água está fria ou quente, porque nem sequer conhece o significado da própria água. Só quando o tiram de lá sente. Os homens também são assim: aprendem quando sufocam.

As gerações depois da minha partilham outros códigos de liberdade. Ser livre, para eles, é por exemplo estar numa zona com wi-fi gratuito. Há guerras, gente que foge, famílias que se deslaçam, crianças que perdem tudo - isso eles sabem, todos sabemos que existem mas não somos nós. Impossível alguma vez termos sido aquilo!

Não, filho, muitos dos nossos eram presos e torturados, simplesmente porque não concordavam. Muitos viviam na clandestinidade, escondidos e longe das famílias, houve gente que morreu por causa da política. Ou fugia da guerra. Até que houve uma revolução...

E é aí que ficam chocados, quando descobrem que os pais assistiram a uma revolução?!! Como é possível! Já existias?!! E viste aquilo ao vivo?!! E é aí que percebemos que, aos seus olhos, tudo é distante: Mestre de Avis e Salgueiro Maia, castelhanos, mouros e fascistas. Tudo distinto mas igualmente distante.

É nesse momento que nos confortamos, porque o essencial do trabalho está feito - não questionam porque não está em questão. A liberdade é um dado adquirido. Está tudo certo, portanto? Sem razões para sobressaltos.

2 A liberdade vai passar por aí, a liberdade está a trespassar-se, daqui para ali - sem que nos assustemos o suficiente para, pelo menos, alguém dar o sinal de alerta. Somos livres, somos livres, não voltaremos atrás - mas é preciso que alguém os avise de que esta liberdade, aquela que seus pais conheceram, corre sérios perigos. Não é preciso golpe militar, nem ditadores. Nem terrorismo islâmico. A ameaça reside na própria democracia.

É verdade, filho, acabou a tortura e os presos de consciência. Mas a nossa opinião cada vez menos conta. É imposta, da forma mais tortuosa e antidemocrática. Nem os nossos parceiros externos somos agora livres de escolher, as nossas opções de diplomacia não são feitas de forma soberana e autónoma.

Ao dizer que não quer angolanos no nosso sistema financeiro, o Banco Central Europeu está a condicionar mais a internacionalização de empresas portuguesas do que todas as missões de charme que este ou qualquer outro governo pense ali fazer.

Já era normal o "puxão de orelhas" que os políticos eleitos levam em Bruxelas. Muitos afirmaram, sem piscar os olhos e com a maior das normalidades, que o nosso ministro das Finanças foi "enxovalhado" pela Comissão e seus pares quando apresentou um Orçamento mal esboçado.

Tudo isto, a subalternidade em si mesma, tornou-se tão banal e aceitável porque, na verdade e quase unanimemente, este foi o caminho que a esmagadora maioria decidiu seguir. Nunca ninguém me perguntou, no entanto, se continuaria tudo bem no dia em que os banqueiros de Frankfurt também passassem a ter uma palavra determinante na nossa política externa.

3 A coisa conheceu vários nomes: começou por ser adesão, depois integração e enfim a união. É atualmente - e aqui o Bloco de Esquerda atirou certeiro - a antítese mais perfeita do ideário de liberdade e de participação popular, que ontem foi celebrado de norte a sul.

Sempre legitimados por tratados, pela Constituição e nas reuniões de chefes de Estado, os passos foram os certos e previamente anunciados. Ninguém com mais de 40 anos de idade se pode queixar da surpresa - da soberania cedida, da política monetária de que abdicámos e, por força do euro, da orçamental que já não temos.

Não temos política económica, mas, repito, esse era exatamente o propósito. E, sistematicamente, 80% dos portugueses renovavam o seu empenho e compromisso, sempre que chamados a escolher governos e deputados.

Então qual é o problema? Não era este o plano, não estava assim traçado o nosso destino? Não, não e não. O projeto era outro, porque a própria União Europeia já não é a mesma.

Quando nos entregámos de corpo e alma, o caminho era acidentado mas o projeto era auspicioso. A Europa era grande e tinha ambição. Ficou entretanto triste, curta de horizontes e muito mal frequentada.

A cedência dessa liberdade foi consciente e voluntária. Portugal aspirava a fazer parte de algo inédito em democracia. O desafio era o da audácia de homens livres e visionários. A proposta era de paz e de prosperidade. E de magnetismo. Trocávamos a nossa decisão pela visão de todos.

E, pelo caminho, também ninguém chorava por trocar Cavaco por Kohl e Thatcher, ou Guterres por Mitterrand. Fomos, portanto, enganados. E as portas que Abril nos abriu estão, uma a uma, a ser fechadas a sete chaves, por eurocratas medíocres e banqueiros ilegítimos.

4 Fomos enganados, comprámos gato por lebre, mas cá por casa também não se contou a verdade toda. De certa forma, havia um pacto não anunciado na famosa trilogia das liberdades: das pessoas, de mercadorias e dos capitais. Circularam, circularam e passadas as décadas ficou mais claro o sistema de trocas: a liberdade pelo liberalismo.

A liberdade institucional, logo a capacidade de uma nação decidir o seu próprio destino, era assumidamente sacrificada. Fazia parte do contrato. Mas havia cláusulas com letras pequeninas e que ninguém atendeu. Ali se dizia que os Estados enfraqueciam inexoravelmente. E, arrastados por essa fragilidade, os líderes mais frouxos e cada vez mais cobardes. Maré alta, maré alta, maré alta, juros baixos. Somos livres mas estamos presos. Mar revolto e fronteiras fechadas.

Não, filho, o pai não será perseguido por ter escrito o que acabou de escrever. Neste ar que respiramos - e que compreensivelmente não valorizam - herdamos a obrigação de alertar para a liberdade que criticamente vivemos. Podendo livremente criticar. E isso não é coisa pouca. 25 de Abril sempre!

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